Desconfi(n)ado

Foram longos e estranhos estes primeiros 6 meses do ano, não foram? Pessoalmente, nunca tive dificuldades em ficar em casa. Considerava-me um profissional creditado na arte de bem preguiçar. Se bem que, devo confessar, em meados de abril já começava a achar atrativo um café na companhia daquele amigo chato que nos faz doer a cabeça só com 2 ou 3 minutinhos de conversa.

Só saía de casa para dar uma ou outra corrida no quarteirão e, naturalmente, para ir às compras. Lá me fui habituando à clausura, com mais ou menos dificuldades. E agora, já com alguma contra vontade, lá tive eu que desconfinar. Mas não foi um desconfinamento à bruta, calma! Fui desconfinando aos poucos. Assim como quem entra na água de uma qualquer praia a norte do Porto: bem devagarinho.

Aproveitei para fazer algumas tarefas durante o confinamento. Uma delas foi deliciar-me com a ausência de carros na estrada. Era tão bom quando conduzia, rumo ao supermercado, sem que me saltasse a jugular pelo pescoço fora com os nervos. Admirei sobremaneira a calmaria nas estradas. Contrastava bastante, depois, com o cenário dantesco que era o dos supermercados, mas pelo menos a viagem era agradável.

Eu deixava a batalha campal dos supermercados lá dentro, entrava em modo zen e saía em modo monge budista, e até conseguia executar esta proeza com relativa facilidade. Temia-a bem mais difícil do que na realidade veio a ser. E, com as estradas vazias, admirei mais as paisagens pelo caminho (note-se que eu não moro na cidade, caso contrário este item caía por terra) e conduzia sem me enervar num um bocadinho.

Mas o desconfinamento chegou e a normalidade começou a acenar como aquela amiga chata da minha avó me acenava quando era pequeno. Eu tinha de sorrir para ela com um sorriso amarelo, e era como se a minha cara se contorcesse para lançar uma espécie de sorriso deficiente e anedótico. Agora também foi assim, só que desta vez eu fiz esse sorriso (vamos chamar-lhe sorriso) com a normalidade. Pensei: “pronto, venha ela”. Mas, pá, quem é que mandou desconfinar aqueles idiotas que só fazem borrada na estrada? Esses wannabes do Paul Walker estavam tão bem confinadinhos, que diabo! É que assim nem um sorriso estrambólico me sai.

Já me enervei mais vezes na estrada estas duas semanas que em meio ano de jogos do Sporting! Desconfinaram-se os chico espertos que fingem não saber que os piscas existem, e também aqueles que acham que se derem o pisca já a meio da manobra que é igual. Não é igual seus moncos! E desconfinaram-se aqueles que vão a 70 na faixa do meio da autoestrada. E aqueles que fazem as rotundas por fora como se o universo andasse todo mal menos eles. É que enervam mesmo naquele interior irracional que tenho. Mas pronto, Portugal é assim, a minha rabugice lá terá de se aguentar.

Contra o Sistema

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