A entrevista a Varandas – Para lá das gafes

No meio do Covid, pouco há a dizer, porque poucos desenvolvimentos há. Ou melhor, assim deveria ser. Se dentro de campo pouco ou nada se tem passado, fora de campo Varandas tem-nos dado a todos que falar.

Primeiro, foi destacado para ajudar no combate ao vírus, algo que penso que terá que ser inequivocamente louvável. E poderia ser apenas isso. Mas não. Acontece que arranjaram maneira de, pelos media fora, terem feito questão de nos informar de que ele foi para as trincheiras não por obrigação, mas por se voluntariar corajosamente. A ser verdade, isso trará, desde já, novos contornos do foro meta-cósmico à coisa, visto que ele arranjou maneira de se voluntariar exactamente no dia em que a obrigatoriedade se inicia e terminar o voluntariado precisamente no dia em que a obrigatoriedade terminava.

Depois disso, foi a uma famosa conferência de Yalta cá do sítio, em que o governo fez questão de se reunir com 3 dos 18 clubes da liga. Confesso que não faço ideia se alguma justificação oficial foi feita para se ignorar 15 dos clubes, mas assumo que tenha havido alguma, visto não ter havido grandes repúdios sobre o assunto.

Varandas foi, vindo directamente dos centros hospitalares, e reuniu-se com ministros e directores. E foi cheio de estilo, com uns óculos para proteger a vista do sol…mas sem máscara. Não sei se ele foi obrigado ou se optou por não utilizar a máscara voluntariamente, mas desta vez não se falou sobre o tal “dar o exemplo” de que tanto se falou quando ele se voluntariou para fazer algo para o qual tinha sido obrigado a fazer.

O melhor aqui é que ainda se alongou sobre as vantagens científicas e o conforto extra que ele ser médico trouxe ao primeiro ministro…enquanto essas notícias eram ilustradas com fotografias dele sem máscara ao lado de pessoas do chamado grupo de risco.

E nem sequer foi só isso. Houve também os bailados com a Sampdoria, Bétis e Braga, as movimentações do caso Alcochete que trouxeram notícias inequivocamente boas para o Sporting (que o presidente, por algum motivo, quis evitar), as novelas Rúben Amorim, que afinal não são 10M, mas 13.8M (para se ter noção, se não houvessem aqueles 10M e fossem “só” 3.8M…seria um negócio absurdo), mostrando que mesmo sem fazer nada e com o jogo em pause, Varandas consegue causar um grande prejuízo ao Sporting por um problema que ele próprio conjurou.

Tanto, mas tanto sumo.

Tudo culminado, claro, com a entrevista que deu ao Canal 11.

Antes de entrar no assunto convém estabelecer aqui umas regras.

Primeiro, isto tem a ver apenas com o conteúdo do que Varandas disse. Sim, já todos sabemos das gafes e anacolutos que nos levam a presumir que Varandas seja daquele tipo de pessoas para quem se achou que, talvez, fosse melhor colocar instruções nas escadas rolantes. Mas vamos ver apenas o sumo do que ele disse.

Convém referir, também, que não vi a entrevista, apenas clipes que colocaram online – a minha televisão encontra-se avariada – e acompanhei apenas esta recapitulação, que será por onde me irei guiar. Se alguma coisa “não for bem assim”, está aqui o motivo. Sei que o Record tem por regra limpar a imagem de Frederico Varandas, mas que se lixe, vamos deixá-los jogar em casa. Até porque o objectivo disto é ver o conteúdo e quem melhor para limpar a forma que o Record?

E também se deve referir aqui algo: o Canal 11 é um canal que quer manter o conteúdo o mais futebolístico possível, sendo, por isso, compreensível, que se foquem mais no futebol “jogado” e menos em questões como contas, guerras imaginárias contra claques, ou violações de estatutos.

Começando, e agrupando da mesma forma que o apanhado acima referido agrupou:

Pandemia

“Tivemos neste primeiro fim-de-semana da Bundesliga inúmeros casos. Independentemente do número de semanas de preparação, qualquer equipa vai ter problemas quanto aos jogos de preparação. Tem de se pesar entre o risco de ganhar competitividade e o de contágio. Eu, como médico que esteve no combate à covid-19, acho que temos de começar a normalizar os processos de vida normal. O governo teve muito mérito nas primeiras medidas e está a ter muito mérito no desconfinamento. Quem disser o contrário, eu discordo. “

Começando pelo final, é esplêndido dizer-se, no fim de uma opinião, ”Quem disser o contrário, eu discordo”.

Não estou certo a que é que Varandas se referia quando falou em “inúmeros casos” na Bundesliga. À data da entrevista, que se saiba, não houve infectados no primeiro fim-de-semana de jogo da Bundesliga. Houve alguns antes. Talvez Varandas estivesse a fazer confusão, o que levará a questionar a sua lucidez de raciocínio (não de discurso!), até num tema sobre o qual estará qualificado para falar.

Adiante, o “independentemente do número de semanas, qualquer equipa vai ter problemas” cheira a uma preparação para um insucesso e/ou mau futebol, visto que o Sporting foi o primeiro clube a iniciar trabalhos.

Sporting candidato ao título em 2020/21

“O objetivo que temos, sem mentir aos sócios, é estar na Champions League. Ponto final. Fizemos um trabalho de reestruturação. Obviamente este é o ‘target’ do Sporting. O Sporting vai lutar pelo título. Vou dizer que o Sporting vai ser campeão? Não vou dizer isso. Até 2022, o objetivo é estar na Champions League. Se tiver um Tiago Tomás, um Gonçalo Inácio ou um Nuno Mendes a jogarem na Liga dos Campeões valorizam três vezes mais do que na Liga Europa.”

Quanto ao objectivo, é algo que estou de acordo. Foi algo que se assumiu em 98/99 e em 2013/14, por exemplo. Algo que deveria ter sido feito há dois anos. Não foi. Deveria ter sido feito no ano passado. Não foi. Está agora a fazer-se. Dois anos, quase 60 milhões gastos em passes e muitas saídas depois de quando devia ter sido feito.

De frisar, também, que alguém que repetiu várias vezes queixas sobre a herança e também que a época anterior (na sua maior parte, herdada) foi “a melhor época dos últimos 17 anos” e, depois de preparar já uma época e de a reformular várias vezes estar a baixar o objectivo, poderá mostrar que se aprendeu alguma coisa, sim, mas apenas acerca das suas próprias limitações.

Até porque o 3º lugar dará acesso à Champions na próxima época. Há 4 anos atrás, muitos consideraram um fracasso o 2º lugar de Jorge Jesus. Que dizer, então, de agora, com um plantel mais caro, tanto em termos de passes, como em termos de custos de pessoal, e com um treinador ainda mais caro do que JJ (!!!), o objectivo à partida ser o 3º lugar?

Contratar diretor-geral?

“Queremos sempre melhorar. O Hugo Viana teve se calhar o pior papel possível num clube que tem de vender e não tem capacidade para reforçar o plantel. Avalia-se a pessoa por isto e não a conjuntura que levou a isto. Estamos a olhar para a nossa estrutura. Estamos constantemente a querer melhorá-la. O Hugo é um grande ativo, a nível de competência e seriedade, sem dúvida alguma. É conhecedor da formação e dos treinadores. Tem uma disponibilidade e paixão muito grandes. Queremos formar também treinadores também. Há um envolvimento dele com todos os treinadores.

Miguel Quaresma foi fulcral na forma como pensou o modelo centrado no jogador. Ele e João Couto fizeram um trabalho espetacular. Tenho várias reuniões de trabalho semanalmente e observava que os treinadores do Sporting na formação tinham contrato de ano a ano. As pessoas olhavam para os títulos, se não éramos campeões os treinadores não prestavam. Vai embora. O treinador sente uma pressão enorme para ter sucesso imediato. Olhemos para o Cristiano Ronaldo, o melhor jogador que o Sporting formou até hoje. Quantos títulos ganhou na formação? Nenhum. É isto o que o Sporting tem de fazer. É o que a Academia tem de fazer. O objetivo do cozinheiro, do senhor que abre a cancela, de toda a gente na Academia é ver um jogador a chegar à equipa principal como foi o caso do Thierry Correia. Fez uma pré-época e foi vendido por 12 milhões de euros. Todo o funcionário da Academia tem de estar realizado por ele. Conciliar com títulos? Maravilha. Mas o objetivo é formar jogadores.”

Dizer que não tem capacidade para reforçar o plantel, tendo em conta que acabou de gastar mais de 15 milhões num avançado e num treinador, parece-me profundamente desonesto. Ainda para mais, quando se trata da direcção que mais gastou por mercado na história do clube e quando se gabam tanto de ter feito tanto dinheiro em vendas. Dinheiro que foi aplicado em jogadores.

Diz, também, que Viana é “conhecedor da formação e dos treinadores”. Tivemos Keizer, que foi despedido em Setembro, depois de se ter contratado para o modelo dele, apesar de se ter tido vários meses para avaliar o seu valor. Tivemos Leonel Pontes, que foi e continua a ser o escolhido para os Sub-23 e que, apesar de o terem contratado e de o terem tido nos quadros alguns meses, ainda assim, precisaram de o observar mais de um mês ao comando da equipa principal, presumivelmente para “ver se cola”, tendo-se referido, até, várias vezes o caso de Lage (como se o factor que levar Lage a ser campeão tivesse sido o facto de ter sido um interino!!). Tivemos Silas, a quem não deram condições absolutamente nenhumas e despediram após um desaire com grande responsabilidade do guarda redes.

E, após isto, decidiram dar 10M por um treinador, como se fosse o único treinador possível para se ter no mundo. Se fosse conhecedor de treinadores, nada disto teria sido tratado como foi. E, em vez de darmos 10M a quem desse nas vistas, íamos nós buscar um gajo que desse nas vistas ao Casa Pia. É assim que funciona, senhor presidente.

É incrível, também, ter falado no Thierry Correia, como se fosse uma aposta ganha. Foi preciso, primeiro, o Bruno Gaspar estar na CAN, o Ristovski estar lesionado, o Rosier estar também lesionado, o Ilori jogar à direita nalguns jogos de pre-época, e só então, se deu oportunidade a Thierry (à esquerda, se não estou em erro), que teve a felicidade dos poucos minutos contra o Liverpool terem corrido bem. Foi preciso um alinhamento cósmico para que ele tivesse jogado. Não foi estratégia.

Quanto a Miguel Quaresma…

Formação

“Quando chegámos, Joelson, Nuno Mendes entre outros miúdos estavam soltinhos para assinar por outros clubes. Estavam na transição e isto investimento. Tivemos de aguentar o assédio de tubarões europeus. Assédio nacional? Aí, até hoje tem havido bom senso, não temos entrado numa guerra santa. Custa muito formar um jogador com 14 anos e por um milhão ou meio milhão levam o miúdo. “

Deveria ter sido a prioridade. E isto junta-se, também, ao item anterior. Um jovem não pode achar que é preciso haver 3 lesões e uma adaptação de Ilori para poder jogar. Os contractos destes putos custam “zero”, quando comparados com qualquer Battaglia. É preciso mostrar aos jovens que eles podem jogar. Preciso colocar jogadores como Elves Baldé, Geraldes, Domingos Duarte, ou Matheus Pereira.

Plantel 2020/21

“Queremos um plantel com 24 jogadores sendo que metade virá de Alcochete. Com o Battaglia para ensinar, com Acuña. Entre 8 a 12 serão formados na Academia. O que não podíamos ter é o que tínhamos quando chegámos, em que quase não havia jogadores formados. Renovar com Francisco Geraldes? Ainda tem contrato.”

Quando chegaram, tinham (ou poderiam ter) Domingos Duarte, Max, Tiago Djaló, Thierry Correia, Miguel Luís, Geraldes, Jovane, Nani e Matheus Pereira. Dava, literalmente, para os tais 8 que Varandas diz que “tem que passar a ser”.

No fecho de mercado da primeira época preparada por Varandas, tínhamos Max, Ilori (por quem se pagou), Miguel Luís, Jovane e Camacho (por quem se pagou). Cinco. Sendo que só aproveitou 3 dos 9 anteriores.

Muito feia, esta incoerência.

Matheus Pereira

“O prolongamento da opção foi com acordo nosso. Temos de ser solidários. Eu estou a sentir dificuldades. O WBA que está na Premier League mandou-nos uma carta a pedir um adiamento e vai receber mais de televisão que o nosso orçamento todo. Não o dou por vendido, só dou quando tiver o dinheiro na conta. Temos um acordo que vem de trás. Pediram um prolongamento. Como o WBA, há mais três clubes com incumprimentos connosco que não quero revelar, nacionais e estrangeiros.”

Nada disse sobre o desaproveitamento e sobre a existência de uma cláusula que só nos comprometeria em caso de sucesso e que nada nos traria em caso de insucesso. E, tendo em conta que vingou em Chaves e em Nuremberga, tendo ultrapassado todos os casos, não havia motivo nenhum para se considerar que fracassaria.
Comentário, portanto, inútil, sobre um caso que diz muito a muitos adeptos, aproveitando o desvio das atenções para mostrar que “é bonzinho”…em boa verdade, certamente convencerá alguns com isto.

Palhinha

“Empréstimo foi feito pela Comissão de Gestão. A decisão não passou por mim. Proposta concreta? Não é verdade. Ao Sporting não chegou. De proposta não há nada.”

A culpa é, de facto, da Comissão de Gestão. Gostava que fosse tão factual quando disse que a culpa da preparação desta época foi “condicionante do passado”, como se tivessem sido Alcochete/Comissão de Gestão/Bruno de Carvalho os culpados de ele ter vendido Raphinha e Dost para ir buscar Jesé e Bolasie.

Adrien e João Mário

“Têm contrato, têm massas salariais muito elevadas. Vejo aquele grupo com muito futuro. Teremos de trazer experiência ao plantel. A estes miúdos não chega ser apenas miúdos. Quero reforçar e dar alegrias ao treinador. O Rúben Amorim já trabalhou com este grupo e está a trabalhar e demonstrou o que gostaria de ter. Veremos se é possível. Não há nenhum jogador intransferível. O Sporting tem seis miúdos a chegar à equipa A. Depois temos um Plata que foi contratado com 18 anos. O Camacho com 19, vamos ver estes miúdos. A margem de progressão é grande. Precisam de um Rúben Amorim para apostar neles.”

Portanto, se precisam de um Rúben Amorim para apostar neles, então ainda bem que ele apareceu aí a tempo de darem 13.8M por ele, caso contrário, ficávamos com eles encalhados no plantel mais tempo?

Aqui, a forma como Varandas atira desenfreadamente lugares comuns e frases vagas e desvia incessantemente o assunto, mostra algum incómodo com a questão. A minha interpretação (vale o que vale), é que está a tentar negociar, mas duvida que consiga.

Jesé e Bolasie

“Um Tiago Tomás estava preparado para ser titular do Sporting, ou para ajudar a equipa [no início da época]? Por exemplo. Tínhamos de ter jogadores para completar o plantel… Não há milagres. Eu não tinha estes miúdos. Se tivéssemos estes miúdos de 19 anos a chegar eu autopenalizava-me. O empréstimo é um sistema que não me agrada nem nunca me agradou. Fi-lo por necessidade. Não podemos esquecer o passado. Preparámo-nos no mercado para vender o nosso principal ativo que era o Bruno Fernandes por valores que acabámos por vender. Não conseguimos vender em agosto. Tínhamos obrigações financeiras que não podíamos incumprir e não o fizemos.”

Sobre Jesé, na altura, disse que “soube informações do último ano e de quem esteve com ele no balneário” e que ele iria estar comprometido com a sua profissão. Disse que Bolasie era um jogador “maduro, o nosso plantel é muito jovem”, enquanto citava os “cientistas do futebol”.

Agora?

Não podemos esquecer o passado”. Não deixa de ser irónico que Varandas diga isto exactamente para ver se nós esquecemos o verão passado. A verdade é que disse que ia ser uma época melhor, disse maravilhas da estrutura e que já estavam a preparar a época desde novembro…para depois dizer que foi culpa “do passado” que contrataram 3 jogadores por empréstimo à última da hora, após terem delapidado a equipa no fim do mercado e despedido o treinador no dia 2 de Setembro, depois de terem feito um plantel à imagem do seu modelo.

Rafael Leão

“Havia dois processos dele, um a correr na FIFA e outro no TAD. O da FIFA eles consideraram que não eram competentes para julgar o caso e colocam a responsabilidade no TAD. Ao fazerem isto, decisão com a qual não concordamos, ilibam o Lille da equação. Entendemos que o Lille tem responsabilidades na rescisão.

Não sei como é que isto passou tão despercebido, mas ele diz que entendem que o Lille tem responsabilidades pela rescisão de Rafael Leão. Isto, a ser verdade, parece-me uma bomba. Até porque Rafael Leão rescindiu com o Sporting a 14 de Junho e assinou pelo Lille a 8 de Agosto, quase 2 meses depois. É uma acusação gravíssima!

Modalidades

“Tem de haver a palavra ‘adaptação’ e não cortes. Irão sobreviver os que se adaptarem melhor à nova realidade.”

Poderemos, portanto, aguardar por “inadaptações salariais”.

Formação e jovens no plantel

“Investir na Academia não é só mudar os relvados. Diretor de recrutamento, de unidade de performance, de scouting, de departamento clínico mudaram todos. Mudámos estes recursos humanos e vimos o que tínhamos em termos de formação. Tínhamos uma equipa de sub-23, uma equipa B que desceu de divisão e foi desativada. Um erro crasso. Na equipa sub-23 tínhamos Marcos Túlios, Paulinhos, jogadores com 22 anos e 23, ordenados pesados, que rendimento deram? Agora temos miúdos com talento. Fizemos um grupo de elite que idade têm? 15 e 16 anos

(…)

O Matheus Nunes foi contratado por nós em janeiro de 2019 e estava no Estoril B..”

É curioso que diga que, quando chegou, tinha “jogadores com 22 e 23 anos”, e que agora têm “15 e 16 anos”. Primeiro, porque os jogadores que ele referiu, quando ele chegou, tinham 20 e 21 anos. Segundo, porque a equipa de sub-23, quando ele chegou, tinha uma média de 18.87 anos. Hoje, tem uma média de 19,33 anos.

Ou seja, diz 2 nomes de contratações de Bruno de Carvalho, para passar a ideia de que estávamos mal e depois faz promessas vagas e demagógicas para tentar provar que estaremos melhor. No processo, mente.
Logo a seguir, refere o Matheus Nunes, jogador que foi contratado com 20 anos, ou seja, semelhante aos casos que ele referiu como sendo maus.

Rúben Amorim

” Rúben Amorim com metodologia de treino, a liderança, o não ter medo de apostar na Juventude…

Em relação ao valor, eu vou dar um exemplo. O Sporting tem tem 50 por cento do passe de Matheus Nunes e pagou 500 mil euros por essa parte. Tem a hipótese de comprar mais 50 por cento por outros 500 mil euros. Temos todo interesse em comprar. Ele custou 500 mil. Do que eu já vi do Matheus Nunes, como está a treinar hoje com os colegas com Battaglia, Doumbia, Vietto… Não tenho dúvidas nenhumas que vai pagar o Rúben Amorim. Só ele vai pagar o Rúben Amorim. Eu, para acertar no treinador, tem de ser competente e completamente em sintonia com a aposta nos jovens.”

Não sei como é que Varandas pode fazer-nos crer que sabe identificar coisas como “metodologias de treino”, depois de todo o passado catastrófico que tem com todos os dossiers de treinadores.

Matheus Nunes é um jogador que foi do Ericeirense para o Estoril em 2018. Seis meses depois, transferia-se para o Sporting, onde fez 30 jogos pelos sub-23. Varandas, que há uns meses atrás falava no Fernando, Jesé e Bolasie da forma como falava, não tem dúvidas nenhumas de que Matheus Nunes vai custar, pelo menos, 15M (se não estiver a contar com os ordenados que pagaremos a Rúben Amorim).

Não me importava que ele tivesse esta paixão quando falou no Geraldes, mais acima e não conseguiu dizer mais do que “renovar? Ele ainda tem contrato”.

Documento ‘regresso ao futuro’

” Resolvemos o empréstimo obrigacionista, o problema de tesouraria. Conseguimos cumprir o fair-play financeiro. Conseguimos no meio disto vencer dois títulos no futebol. Conseguimos ainda vencer oito títulos europeus nas modalidades. Isto tudo em 20 meses.”

O empréstimo não foi nada como tinham dito. O problema de tesouraria foi feito com factoring. “Cumprir o fair-play financeiro” é apenas demagogia, face aos gastos que tinham na altura.

Tudo isso, deixando o Sporting com cada vez menos e menos recursos. O objectivo é exactamente o oposto disso.

Passivo

“Chegamos em setembro de 2018. Significa que tivemos de fazer uma medida no passivo face ao momento de tesouraria extremamente difícil e tendo o incumprimento do fair-play financeiro à porta, tivemos de aumentar propositadamente o passivo com a operação da titularização do contrato da NOS. Aumentamos transitoriamente o passivo numa medida de sobrevivência. Faz parte da estratégia. A partir daí, em três trimestres seguidos, reduzimos o passivo. À data de hoje, apresentamos cerca de 304 milhões de euros de passivo, um valor já inferior ao passivo de 2016/17. Estamos a reduzi-lo de forma consistente até à pandemia. Agora temos um problema chamado covid-19 que mexe com o Sporting e com todos os clubes. Isto foi delineado. Sofre a competitividade e sabemos que o segundo ano do mandato era o mais duro porque foi o ano em que tivemos de perder os ativos desportivos que valiam mais e não tínhamos os ativos da formação ainda prontos para integrar no plantel. Agora temos.”

Tinham contas para pagar. Usaram dinheiro que já lá estava para pagá-las.

Era como eu viver com outra pessoa, chamemos-lhe, Zé. Antes do fim do mês, o Zé era deportado. Mas, antes de ir, o Zé deixava uma nota de 50€ em cima da mesa. No fim do mês, eu pegava na nota e pagava as contas. Isto, pelos vistos, chama-se “estratégia”, e salvei a casa dos males infligidos pelo Zé.

Proximidade com Vieira e Pinto da Costa

“Nessa reunião, falo em nome do Sporting mas também em nome do Benfica, do FC Porto e do futebol português. O papel fundamental que a FPF teve também. Tivemos uma reunião primeiramente em videoconferência onde nada se soube. Os três presidentes estiveram presentes com Fernando Gomes e Tiago Craveiro, em que expusemos as nossas preocupações do futebol português, produto e exportador de talento. (…)

 Do ponto de vista da industria, é uma loucura Benfica, Sporting e FC Porto não estarem alinhados, pelo menos 80% da visão do futebol português. Não estou a falar de rivalidade nem processos na justiça. Falo do ponto de vista empresarial e da indústria. Nenhuma indústria se não houver alinhamento na base… Houve uma necessidade. Aqui os clubes sentiram-se com as suas receitas completamente cativadas. E agora? O que posso dizer é que realmente o que levou Sporting, Benfica e FC Porto a estarem juntos naquela sala foi a necessidade de lutarem pela indústria do futebol português. Esta luta tem de ser contínua durante o ano, apesar das divergências.” (…)

 Com muito boa intenção que tenha Liga e FPF. O futebol tem de ser de famílias e isto não há. Temos de valer mais. Como? Temos jogos com cinco mil pessoas e temos de ajudar esses clubes.”

Varandas tece elogios sobre um alinhamento entre os clubes, enaltecendo o espírito de união para um bem comum e uma ajuda para com os clubes pequenos…numa reunião onde só estiveram os 3 grandes.

Contratação de Wang Jiahao

“Não veio por 2 milhões de euros. Veio no âmbito de uma parceria. Das três rescisões, a do Rui Patrício foi a mais difícil porque estávamos com a corda na garganta com o empréstimo obrigacionista e tínhamos de o conseguir fazer em dois meses. Na verdade, conseguimos 26,5 milhões de euros e o resto foi colmatado com a venda do Patrício. Nesse momento tínhamos um objetivo que era, e tendo em conta que o Patrício teve uma proposta antes da rescisão na ordem dos 18 milhões de euros, nós balizámos um acordo nesse preço, que seria normal para o Sporting. Foi um negócio muito complexo. O Sporting devia muito dinheiro à Gestifute. O Sporting na altura dizia que não. Havia valores a dever à Gestifute em relação ao Adrien, ao Patrício, havia valores do Sporting ao Rui Patrício… Nós conseguimos reduzir muitos milhões de dívida da Gestifute ao Sporting. O Rui abdicou de muito porque teria valor a receber. Foi uma negociação extremamente difícil. O Wang vem numa parceria do Wolves. Era um miúdo da formação chinesa, um dos principais acionistas do Wolves tem vários investimentos em Portugal. Não fomos iludidos. Era o miúdo mais talentoso e promissor. Nessa parceria, entendemos por o miúdo a rodar nos sub-23. Seria uma hipótese de mercado para a China. É um dos nossos objetivos de internacionalização no âmbito da formação. Era um produto com um talento chinês. De facto, não resultado. Desportivamente não conseguiu impor-se. Foi um negócio extremamente difícil. Safou-nos em tribunal porque se calhar, como os outros, teríamos perdido.”

O Sporting devia muito dinheiro à Gestifute? O Sporting não referia isso. A Gestifute não referia isso. E se devia à Gestifute, por que motivo pagou esse montante à “Quality Fund Ireland” (onde Jorge Mendes está envolvido)?

Havia valores do Sporting ao Patrício”? Onde? Numa rescisão unilateral de contracto? De onde veio isto?

“Conseguimos reduzir muitos milhões de dívida da Gestifute ao Sporting”? Então quem é que deve a quem? É o Sporting à Gestifute ou a Gestifute ao Sporting? E como é que, pagando-lhes (nem foi a eles), reduzimos os valores que eles nos deviam? E, assumindo que seja uma gafe e que ele quisesse dizer ao contrário, onde estavam esses “muitos milhões”, que 6M não tenham chegado para mais do que “reduzir muitos”? E, se for esse o caso, reduzimos para quanto?

O Rui abdicou de muito porque teria valor a receber”? Tínhamos que lhe pagar por ele ter rescindido? Um prémio de rescisão? Isto era suposto ser um acordo mútuo para NÓS largarmos o processo.

De facto, Varandas tem razão quando diz que “foi um négocio muito complexo”. A mim, e isto é apenas o meu parecer sobre a situação, parece-me evidente que houve umas artimanhas e rumos incertos em todo o negócio e Varandas, com mais ou com menos conivência, não consegue explicar bem a versão “oficial” do negócio e perde-se em tópicos soltos do briefing que lhe deram sobre como justificar isto.

A verdade, é que pouco se questionou sobre esta parcela do negócio, mesmo que já tenham saído artigos sobre o assunto na imprensa internacional. Nesta entrevista, perguntaram mesmo de onde vinha essa tal dívida que surgiu subitamente, e Varandas não foi capaz de responder (o painel do Canal 11 não tinha interesse, nem a missão de aprofundar o assunto…e mesmo assim tocaram mais no tema que todos os jornalistas até ao momento).

Quanto ao Wang…primeiro, dizer que o quiseram por ser promissor, é um contrassenso com o que diz dos jovens que temos na Academia. É um contrassenso com quando diz que não gosta nem nunca gostou de empréstimos. É um contrassenso com quando diz que não tem dúvidas sobre talentos como Matheus Nunes, pois deu 2M por este empréstimo de meio ano devido ao seu potencial. Foi formado em Espanha (de acordo com o Zerozero, pouco se sabe sobre ele, o Transfermarkt refere-lhe uma carreira e nome diferente) e ele afirma que foi formado na China, o que leva a crer que nem sabe bem o que ali estava.

Não continuou sobre o tal “protocolo do mercado chinês”, parecendo até condenar aquilo a uma experiência que correu mal, mas que acabou.

E ainda remata com “em tribunal tínhamos perdido, como os outros”. Em primeiro lugar, o único processo que foi a tribunal…ganhámos. Em segundo lugar, o “safou-nos” dá a entender que não havia alternativa senão andar a inventar “dívidas” e craques formados-na-china-que-afinal-foram-formados-em-espanha-e-afinal-não-são-craques.

Competitividade no plantel

Tivemos de o fazer [abrir mão dos melhores jogadores]. Fizemos a segunda maior venda do futebol português de sempre. Quem me dera a mim chegar aqui e dizer assim: tenho a solução para resolver um problema de tesouraria de 215 milhões e não vou perder competitividade desportiva. Não acredito que alguém seja sério e conseguisse fazer isto. Nós conseguimo-lo mas isto tem um preço. É fácil destruir, chegar aqui e perguntar porque é que paguei isto. A situação financeira do Sporting não me assustava na campanha eleitoral e à data de hoje o Sporting financeiramente está muito melhor do que em 2018..”

Mais uma vez, Varandas parece traçar uma fatalidade de que ou era como ele fez, ou o Sporting teria acabado.

Todos sabíamos que iria haver uma perda de competitividade desportiva. Não era preciso era liquidá-la totalmente, enquanto liquidava todos os investimentos feitos e liquidava competitividade económica. Financeiramente estamos melhor? Economicamente estamos muitíssimo pior do que estávamos há um ano, tal como o último R&C demonstra.

Contrato com a NOS

“É assunto muito sério para o Sporting e cumprimo-lo. Estamos a falar de mais de 40 milhoes de euros de divida a clubes, etc. Essa medida foi um dos problemas que encontrámos, o mais premente, o défice de tesouraria de 215 milhões de euros. Este é um valor colossal. Conseguimo-lo à custa de antecipar receita de 65 milhões de euros, de chegar a acordo com Rui Patrício, Gelson e Podence, à custa de venda de ativos e tempos de relembrar que o Sporting, crescemos a ouvir isso, que o Sporting produzia muito bons jogadores mas vendia mal. Os rivais é que sabiam vender jogadores. Quando olhamos para esse prospeto, da qual a melhor qualidade é a transparência, olhamos para um passado. Eu gosto de factos e de números porque é o que fica na história. Nestes dois exercícios desde setembro de 2018 até ao último mercado de verão, entre receitas e venda líquidas de compras, o Sporting realizou mais do que no acumulado dos últimos 10 anos.”

Mais uma vez, Varandas gaba-se de resultados líquidos e de receitas quando fala do plano financeiro. Mas, quando fala no seu trabalho desportivo, transforma-se em pobrezinho e diz que não teve alternativa, porque não lhe deram dinheiro para mais. Ou uma, ou a outra, caro presidente.

E essa dos 40 milhões que tinha para pagar quando chegou…Hoje está em 50 milhões. Em dois anos. Questiono-me se Varandas tem noção disto e mente, ou se não sabe da realidade e se acredita no que diz.

Relação com Sp. Braga e a situação de Battaglia

“Falei pessoalmente com Salvador, entendemos que é discutível, ele percebeu isso mesmo. Disse-me: ‘Eu entendo o seu ponto de vista, o seu departamento jurídico tem uma visão, o nosso tem outra’. O contrato que vigorava foi rescindido, o Sporting teve de pagar nova comissão, novo prémio de assinatura e novo contrato. Entendemo-lo assim. Entendemos que o departamento jurídico do Sp. Braga tenha outra visão.”

Claro que foi exactamente assim que isto se passou!

Saída de dois elementos da direção

“O comunicado é de hoje mas é algo que o Conselho Diretivo estava preparado há dois meses.”

Podiam ter aproveitado e utilizado esses dois meses para colocar o nome do 3º elemento que entretanto se demitiu no comunicado.

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