Alcochete, Propaganda e Realidade


Alcochete

Escrevo este texto no dia do segundo aniversário da Invasão a Alcochete. Apenas coincidência, porque certamente a “efeméride” não é motivo para qualquer tipo de celebração e muito já se disse sobre o tema, a maior parte até efabulações, como o previsível desfecho do processo judicial o provará.

Apenas umas breves considerações.

Sendo indiscutível a gravidade das acções daquele grupo de adeptos, que resolveram invadir propriedade do clube, ameaçar e agredir (alguns dos invasores) jogadores, treinadores e staff, resultando o acto num crime lesa Sporting e seus activos e um crime contra cidadãos que resultará (e resultou, que houve prisão preventiva por 1 ano) em condenações que a justiça está encarregue de decidir, é tempo também de acabar com a vitimização daí decorrente e que despertou a calimerice e o choradinho tão comum a algum sportinguismo.

São já 2 anos. As circunstâncias daí decorrentes estão quase todas resolvidas (bem ou mal) e a referência constante e repetida a Alcochete já soa demasiado a desculpa, por incapacidade própria na resolução de problemas e na construção do futuro do Sporting.

Por esta altura, é claro para todos (ou devia ser) que houve um aproveitamento político e financeiro da invasão ao centro de treinos, que não sendo comum e sendo inaceitável, não é caso único no futebol português e um dos exemplos até sucedeu poucos meses antes de Alcochete e com igual gravidade. Ou quase igual, porque em Guimarães não houve o tal aproveitamento político e financeiro. E mediático, já agora.

É, também, claro o benefício que resultou para algumas personagens, entre os próprios atletas (os rescisores), dirigentes e empresários.

Quanto ao Sporting e a sua SAD, perdeu 3 titulares (Patrício, William e Gelson) e 2 suplentes com potencial (Podence e Leão) e fez regressar Battaglia, Dost e Bruno Fernandes, que conseguiram os seus intentos de obter melhores contratos. A historieta da perda a custo zero de centenas de milhões de activos era só válida a curto prazo, uma vez que o Sporting continuava a ter direitos sobre os rescisores. Ou chegando a acordo com os clubes que os contrataram, ou através de acordo com os atletas celebrando novos contratos, ou indo a tribunal.

Entre acordos e decisões do TAD, Patrício, William, Gelson, Podence e Leão resultam (ou resultarão) num encaixe bruto de 80M (somando o valor atribuído a 50% de Vietto). A meu ver insuficiente, porque os acordos foram fracos (principalmente pelas comissões envolvidas), mas o suficiente para pagar uma época desportiva da SAD.

E com isto, entro no meu segundo tema:

Propaganda Vs Realidade

O Sporting perde, portanto, 3 titulares. De uma equipa comummente vista com capacidade instalada para lutar pelo título máximo e que em 17/18, mesmo com rendimento aquém das expectativas, ganha a Taça da Liga, vai à final da Taça de Portugal, chega aos quartos de final da Liga Europa (e perde com o Atlético de Madrid numa eliminatória onde não é em nada inferior) e que em Abril ainda estava na luta pelo primeiro lugar no campeonato (embora difícil, após a derrota em Braga).

Nas circunstâncias em que perdeu esses activos e sem encaixe imediato, obviamente que o contexto era difícil. Ninguém o nega.

Mas o que o Sporting fez (além de relembrar Alcochete em toda e qualquer intervenção)? Entre os comissionários a prazo e a actual direcção? Na verdade, nenhum ajustamento a uma nova realidade, não apenas por Alcochete, mas pela ausência da Champions League que representava um corte significativo nas Receitas Operacionais.

Relembro alguns números, já dissecados por mim em outras oportunidades, mas que faz sentido voltar a referi-los, agora que os Sportinguistas foram brindados com um folhetim de propaganda, chavões e falácias.

Gastos com o Pessoal

2013/2014 – 25M
2014/2015 – 25M
2015/2016 – 48M
2016/2017 – 63M
2017/2018 – 73M
2018/2019 – 69M
2019/2020 – 35M (à data do último RC conhecido, o 1º semestre do ano)

Ajustamento à tal nova realidade, face o decréscimo de Receitas Operacionais e a impossibilidade de, a curto prazo, encaixar liquidez com a totalidade das rescisões?

Na verdade, nenhum. Redução residual e apenas por comparação com 17/18, mas com menos receitas, o que faz do actual plantel, com bem inferior qualidade, bem mais caro, em termos relativos.

Passivo SAD

2018 – 283M (dos quais 44M em Fornecedores, quando os rivais tinham saldos nesta rubrica de 60 e 70M)
2020 – 304M (51M em Fornecedores!!)

Relembrar ainda, face às vestes rasgadas pela falência técnica em 2018, que após uma década com capitais próprios negativos, o saldo era negativo em 120M em 2013, positivo em Setembro 2018, conforme prospecto do EO enviado à CMVM!

Os números que coloco são constantes de Relatórios de Contas e documentos oficiais, não de gráficos martelados para fazer propaganda.

Porque é de propaganda que esta direcção do Sporting Clube de Portugal vive. Com registos calimeros sucessivos, perpetua-se a desculpa de Alcochete para a eternidade, cria-se o discurso de “herança complexa”, quando se fazem centenas de milhões à conta de vendas de jogadores e direitos sobre os jogadores, herdados, e financia-se a SAD e os seus desvarios através dos contratos milionários anteriormente celebrados por outros.

São 100M/época gastos só em salários e aquisições, tendo como resultado um plantel com dificuldades em segurar o 4º lugar numa liga pobre e onde o 3º classificado tem 1/3 do orçamento e os clubes que estão colados ao Sporting, 1/10.

É esta a “consolidação financeira e desportiva que preparou o clube para a pandemia”, que estes senhores dizem ter ocorrido.

Aposta na formação?

Após 60M gastos em aquisições de jogadores e treinadores, há, na verdade e basicamente, Max para amostra. Entretanto, somos brindados com as “pérolas de Amorim”, como fomos com os “bebés de Keizer”, que não calçaram e foram secundarizados, como foram descartados em diferentes momentos pós Junho de 2018 (e não só por esta direcção), Demiral (titular na Juventus), Matheus Pereira ( um dos MVPs do Championship), Domingos Duarte (na equipa revelação da liga espanhola na primeira volta), Palhinha, Dala, Geraldes, etc…

Na verdade, quase 2 anos de mandato, vemos acções de cosmética, desculpas, falácias e tentativas baixas de manipulação dos sócios, cujas experiências têm passado por serem agredidos, pelo tempo de espera à entrada de Alvalade, por códigos de vestuário, por serem descalçados se querem ver o Sporting.

E lemos no folhetim de propaganda recente que se quer implementar um Fast Track para o Corporate. Percebem, portanto, o que estes dirigentes valorizam, de facto?

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