As heranças: Os plantéis do Sporting, de Soares Franco a Rúben Amorim

“Vendi para sobreviver”.

“A herança é lamentável”.

“A época está a correr mal. Erros nossos? Sim, condicionados pelo passado”.


São algumas das muitas frases que Frederico Varandas utilizou para oferecer a sua visão do contexto em que trabalha no clube. Não tenciono desmascarar a pertinência, ou apurar a fidedignidade das citações.

…embora, já que toquei no assunto:

– na primeira frase, é lugar comum dizer-se que todos os clubes, em Portugal, vivem de vendas, portanto, é pressuposto que todos os clubes tenham que vender para sobreviver;

– na segunda frase, ele diz “A herança é lamentável (…) mas temos as ferramentas para invertermos essa situação”, o que é um contra-senso, visto que se tem ferramentas para prevalecer e estava ainda nos primeiros meses de mandato, é porque as herdou, ou seja, de acordo com o que o próprio afirma, herdou ferramentas lamentáveis que permitem sucesso (uma espécie de herança de Schrödinger);

– na terceira, ele não entra em detalhe quanto aos tais erros que terão sido condicionados pelo passado. Mas não vejo que passado é que terá condicionado a dispensa de Matheus Pereira, a não vinda de um ponta de lança, aquisições como Jesé ou Renan, ou a recente dança de treinadores (que ainda acabaria por conseguir desenvolvimentos ainda mais inesperados).

Está bem, admito que tencionava escrutinar um bocadinho as palavras do meu presidente.

Mas, agora que tirámos do caminho essa interrupção que fiz a mim mesmo, voltemos ao assunto: a questão da herança.

É uma questão muito discutida.

No próprio dia em que escrevo este texto, domingo de Páscoa, um artigo d’A Bola refere que “[Varandas] encontrou no mercado solução para ‘herança pesada’ que recebeu” (novamente, é um contra-senso, seria como eu dizer que hoje ao almoço tinha engordado 18kg, “apesar da refeição que me colocaram na mesa”).

Mas qual a justificação, pergunto semi-retoricamente, para esse lugar comum ter ficado encrostado no consciente colectivo do futebol português?

O problema:

Indo às citações que apresentei, o contexto das mesmas sugere-me que a queixa incidirá sobre a situação financeira e desportiva do clube.

Acerca da situação financeira, muitos artigos foram redigidos por outros seres humanos que evidenciam melhor capacidade de análise que a minha nesse âmbito, que desmentem indesmentivelmente essa hipótese, de forma sistemática. E não é uma questão de viés; temos o exemplo d’O Artista do Dia, que apoiou publicamente Frederico Varandas (e, por causa disso, tem sido alvo de acusações totalmente estapafúrdias, desde receber avença, a ter apoiado a destituição de Bruno de Carvalho – apesar dos textos dele sobre o assunto, na altura, mostrarem exactamente o oposto), antes de se ter revelado desiludido com a confiança que lhe deu.

Se a situação financeira foi abordada várias vezes, já a situação desportiva, nunca vi ser abordada.

Antes de mais, o peso da mesma nunca será uma medida absoluta. Depende do comparativo com os outros casos. O Barcelona subitamente receber o clube como Varandas o recebeu, seria uma herança pesada como Rochemback. O Juventude da Estrada receber, subitamente, o mesmo, seria leve como Liedson.

O Método:

Portanto, olhei para os plantéis que todos os presidente dos últimos 15 anos receberam (incluindo Sousa Cintra) e fiz um levantamento de dados.

Para tal, de modo a evitar enviesamentos da minha parte (por exemplo, sou incólume a defender que Rinaudo e Romagnoli são melhores que Redondo e Maradona), utilizei o longe-de-ser-perfeito-mas-ao-menos-imparcial Transfermarkt para avaliar os valores dos jogadores.

Claro que isso acarreta os seus pecados. Como sabemos, vem na Bíblia que Moisés consegue passar pelo Mar Vermelho, mas nem o mais devoto dos santos se acredita que ele conseguisse passar por Mathieu. Contudo, devido à sua avançada idade, tem um valor de 1.2M inferior, por exemplo, ao do Tonel de 2005 (na altura com 25 anos).

Ainda assim, admitindo a impossibilidade de uma análise 100% objectiva, prefiro manter os valores avaliados por eles, confiando na capacidade de quem lê, de identificar qualquer incongruência com alguns valores e de interpretar o contexto que terá levado a isso.

Para além disso, ainda que, devido a idades, ou outros factores, alguns valores possam estar diferentes do valor desportivo que reconheçamos a determinados jogadores, os valores dão sempre uma ideia de como são avaliados no mercado, podendo, portanto, quem os herdou, encaixar um montante dessa ordem (o que, no que diz respeito a “herança”, é um argumento legítimo).

Para comparar valores, fui ao inflationtool.com e ajustei à inflacção.

Começemos pelo início:

SOARES FRANCO

Contexto:

Soares Franco pegou no clube em 19 de Outubro de 2005. Dia 18 de Outubro de 2005 Peseiro tinha-se demitido, o que significa que, pelo menos nesta questão, fica a ganhar em relação a Varandas.

O clube vinha de um denso ressabianço pelas derrotas na Liga e Taça UEFA, na mesma semana, e já tinha sido eliminada das pré-eliminatórias europeias, primeiro da Champions, pela Udinese, depois da Taça UEFA, pelo Halmstads.

Tinham acabado de perder jogadores como Rochemback, Pedro Barbosa e Enakarhire, mas começam a surgir alguns nomes, como Nani e Moutinho.

Plantel herdado:
Valores em milhões de euros, ajustados à inflação de 22.13%

Valor total: 97.4M / Média: 4.4M / Onze mais valioso: 68.4M

Sem ajuste: Total: 79.25M / Média: 3.63M / Onze mais valioso: 56M

JOSÉ EDUARDO BETTENCOURT

Contexto:

Possivelmente, o tocador de maracas mais conhecido do país.

Eleito com 89.4% dos votos, após uma série de épocas em que se ganhou umas taças e até se lutava pelo título, conseguindo algumas qualificações para a Champions, mas nunca indo além do 2º lugar (em parte, devido aos plantéis que o FCP tinha), conhecida pela “era Paulo Bento”.

Gastava-se pouco, apostava-se na casa (Patrício, Veloso, Djaló, Moutinho, Pereirinha, Carriço, e muitos outros), e manteve-se o mesmo treinador, “Paulo Bento 4 ever”.

Plantel herdado
Valores em milhões de euros, ajustados à inflação de 12.24%

Valor total: 117.7M /Média: 5.1M / Onze mais valioso: 88.9M

Sem ajuste: Total: 104.85M / Média: 4.56M / Onze mais valioso: 79.2M

GODINHO LOPES

Contexto:

Se dizem que nunca deram uma chance a Frederico Varandas, por terem começado a pedir a sua cabeça logo ao fim de 1 ano de mandato, então que dizer de um presidente que teve que ser escoltado no dia da própria eleição?

JEB correu mal. O Sporting estava em decadência e se, até aí, conseguia ir rivalizando com o FCP, com a chegada de JJ ao SLB, o rival de Lisboa ultrapassou-nos, tornando a situação mais aflitiva. A saída de Liedson tinha deixado o ataque muito enfraquecido.

A sua eleição deveu-se muito por causa da vinda de Domingos, que tinha uma final europeia e um 2º lugar pelo Braga. Para além disso, vinha associado à dupla Duque-Freitas, que prometia tratar do assunto com “um cheque e uma vassoura”.

Essas eleições ficaram marcadas, não só pela conturbada noite eleitoral, como pelo ressurgimento de Futre, com os charters (até aí, ele podia andar no shopping e só ser reconhecido por 1/10 das pessoas) e com o surgimento de Bruno de Carvalho, na altura vinculado a investidores russos, e com Marco Van Basten como seu treinador.

Plantel herdado:
Valores em milhões de euros, ajustados à inflação de 9.53%

Valor total: 135.9M / Média: 5M / Onze mais valioso: 86.2M

Sem ajuste: Total: 124.1M / Média: 4.6M / Onze mais valioso: 78.7M

Bruno de Carvalho

Contexto:

Se ser sportinguista me ensinou uma coisa, essa coisa foi: “pode sempre ser pior”. JEB tinha sido um desastre completo, com directores aos socos com jogadores, venda de Liedson seguida da aquisição de Cristiano, contratações e vendas desastradas…Eis que…Godinho Lopes chegou, e fez ainda pior.

Não só fez pior, como fez muito pior. O clube fazia a sua pior época de sempre, com o clube no 12º lugar, quando Godinho se demitiu. Economicamente, estava catastrófico. Não havia dinheiro para pagar aos jogadores, os ordenados eram elevados, e os passes dos jogadores mais valiosos nem nos pertenciam.

Ah, já agora, SLB e FCP tinham Hulks, Falcoes, James, Aimares, Di Marias e Matics. Teve que se vender Wolfswinkel a meio da época para conseguir pagar salários.

Bruno de Carvalho e Couceiro foram às urnas (quem quer saber do Severino para alguma coisa?) na hora mais difícil da história do clube, falava-se na possibilidade do clube acabar (!).

Havia uma coisa positiva. A equipa B, cheia de miúdos, parecia jogar bem…

Plantel herdado:
Valores em milhões de euros, ajustados à inflação de 3.73%

Valor total: 104.5M / Média: 4.5M / Onze mais valioso: 78.6M

Sem ajuste: Total: 100.75M / Média: 4.38M / Onze mais valioso: 75.8M

SOUSA CINTRA

Contexto:

Depois de 5 anos em que se conseguiu reerguer o clube e colocá-lo com maiores ambições, tanto desportiva, como economicamente, tudo implodiu num curtíssimo espaço de tempo, com o ataque a Alcochete como epicentro.

Jogadores rescindiam, o presidente era destituído, os adeptos insultavam-se.

Olhando friamente parece um contra-senso. O clube tinha sido campeão em todas as modalidades de pavilhão. Tinha feito bons performances na Europa, com muito azar nos sorteios (Juventus e Barcelona na Champions, Atlético de Madrid na Liga Europa). Fez o segundo campeonato com melhor média de pontos da sua história. Tinha activos e liquidez que valiam uma boa saúde financeira.

Contudo, num espaço de poucos meses, Bruno de Carvalho foi acumulando decisões, sobretudo comunicacionais, que foram valendo mais e mais contestação. Essa contestação tornou-se tão visceral, que muitos lhe atribuíram culpa directa nos ataques de Alcochete – posição misteriosamente adoptada por cerca de 99% dos media, o que é estranho, visto que, mesmo que tal se tivesse vindo a verificar (à data, essa possibilidade tem-se afigurado cada vez menos provável) tratava-se, para todos os efeitos, de uma teoria da conspiração que nunca teve direito a contraditório.

Tudo somado, destitui-se aquele que será, seguramente, o presidente mais amado e mais odiado da nossa história recente (experimentem dizer bem dele ou dizer mal dele, qualquer um dos casos levantará acesas discussões), com Sousa Cintra a ser nomeado presidente interino, para tratar de uma casa que tinha sofrido um êxodo, e encontrava-se em guerra civil.

Plantel herdado:
Valores em milhões de euros, ajustados à inflação de 1.1%

Valor total: 120M / Média: 4M / Onze mais valioso: 81.9M

Sem ajuste: Total: 118.7M / Média: 3.96M / Onze mais valioso: 81M

FREDERICO VARANDAS

Contexto:

Sousa Cintra recuperou alguns rescisores e apresentou Nani, revelando não ter perdido o charme com a forma como descreve os jogadores (“Renan faz lembrar Cristiano Ronaldo”), mas alienou muitos jovens (DEMIRAL!), e não diminuiu a folha salarial. E decidiu despedir Mihajlovic, condenando o clube a uma desnecessária despesa de 3M, para ir buscar…Peseiro. Por um valor anual de 1.6M!

Feito o seu trabalho, lá tivemos nós que ir às urnas, decidir entre 500 candidatos. Venceu Frederico Varandas, que tinha anunciado a candidatura antes sequer de haver eleições, com a promessa de que impediria que as rescisões acontecessem (deve ser o primeiro candidato da história que falha uma promessa antes sequer ser candidato).

Apesar de ter tido menos votantes do que Benedito, Varandas foi eleito presidente, com muitos ilustres apoiantes do seu lado e com a promessa de que todo o seu conhecimento empírico sobre futebol iria permitir que o Sporting voltasse à rota das vitórias.

Isso e a promessa de que iria “unir o Sporting”. Para tal, teria que ser astuto com dois factores: 61% dos sócios não terem votado nele, e os muitos sócios afectos a Bruno de Carvalho e descontentes com a forma como este fora afastado das eleições, pouca ou nenhuma margem de manobra lhe dariam.

Plantel herdado:
Valores em milhões de euros, ajustados à inflação de 1.1%

Valor total: 189.3M / Média: 6.8M / Onze mais valioso: 148.6M

Sem ajuste: Total: 187.2M / Média: 6.69M / Onze mais valioso: 147M

Cenário: PRÓXIMO PRESIDENTE

Contexto:

E que herança deixaria Varandas, caso abandonasse, seja por qual for o motivo, o clube, neste preciso momento?

Plantel herdado:
Valores em milhões de euros, a 12 de Abril de 2020

Valores em milhões de euros, a 12 de Abril de 2020.

Valor total: 89.05M / Média: 3.87M / Onze mais valioso: 64M

Conclusão

De acordo com o Transfermarkt, Varandas, não só herdou o plantel com o 11 mais valioso, como herdou um plantel com um 11 quase no dobro dos outros plantéis.

Mesmo sem o Bruno Fernandes (que vale imenso, certo, mas Varandas foi o único presidente que herdou um Bruno Fernandes), o plantel que Varandas herdou continuaria a ter o 11 mais valioso, com alguma distância.

Por outro lado, o plantel que Varandas construiu a partir daí, teria o 11 menos valioso dos últimos 15 anos.

Varandas herdou um plantel com um valor médio que se destaca claramente acima de todos os outros, de quase 7M por jogador.

Por outro lado, caso deixasse o clube hoje, quem pegasse no clube teria que herdar o plantel com o valor de mercado mais baixo da nossa história recente.

Mais baixo ainda que o plantel que Cintra herdou que, como se sabe, era um plantel com um número muito elevado de jogadores, e muitos jogadores de baixo valor, visto que pegou no clube numa fase em que os principais jogadores tinham rescindido, e os muitos excedentários ainda não tinham sido emprestados/colocados/vendidos (todos os outros presidentes iniciaram o mandato a meio da época, com o plantel já arrumado, sem excedentários).

Contas feitas, Varandas herdou, com uma larga distância, o plantel mais valioso da história recente do Sporting. Em contrapartida, deixaria para quem pegasse agora no clube, o plantel com menor valor da nossa história recente.

Haveria aqui outros factores a ter em conta, como os elevados salários que este plantel de baixo valor aufere, os elevados gastos que foram efectuados em contratações (mais Rúben Amorim, claro) e lembrar que jogadores como Vietto ou Plata apenas permitem 50% do encaixe (Varandas e Cintra terão sido os únicos que herdaram um plantel com praticamente 100% dos passes de todos os jogadores).

Confesso que fiz esta pesquisa sem saber para o que ia e o que descobri, mesmo sabendo que nada disto são verdades absolutas, fez-me ficar muitíssimo mais preocupado do que estava antes de ter começado.

Acabo parafraseando a questão que coloquei no início:

Qual a justificação para a ideia do Varandas ter tido uma “pesada herança” ter passado a ser um lugar comum no consciente colectivo do futebol português?

2 thoughts on “As heranças: Os plantéis do Sporting, de Soares Franco a Rúben Amorim

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