Em Falência Técnica

“Em Falência Técnica” é um artigo extenso de três partes que apresenta as consequências e causas da atual crise em três panoramas distintos:
A economia Global,
A economia nacional,
As finanças do Sporting Clube de Portugal.
Como vivemos num mundo profundamente conectado, urge perceber, através de uma abordagem “top-down”, de que forma é que aquilo que mais nos importa ficará afetado pelas decisões dos dirigentes, órgãos de estado e burocratas.
Apesar de ser de facto um artigo extenso, inclui apenas um ínfimo da informação que existe disponível sobre estes tópicos. Como tal, peço ao leitor que continue a jornada sozinho. Ainda assim, coloquei alguns links ao longo do texto para explorar alguns dos temas que ache interessante.
É de frisar que nada do que for aqui escrito deve ser interpretado como conselho de investimento.

Um mundo em falência técnica

Ui falência… Que palavra tão feia. É feia e, ainda por cima, leva-nos a lembrar de acontecimentos traumatizantes que abalaram o mundo há pouco mais de uma década. A falência de firmas como a Lehman Brothers e o desmantelamento e a incorporação de outras tantas como a Bear Stearns foram o tópico mais quente da crise financeira que nos assombrou em 2007-2009.

Enquanto somos levados a acreditar que a economia está melhor que nunca, que tudo se resolveu naqueles 3 fatídicos anos – mais uns quantos para “resolver” a crise portuguesa – muitos são os que rejeitam veemente essa teoria. Como, perguntam vocês? Ora, com os seus próprios bolsos, carteiras e monte de cartões de crédito esticados ao limite. São dívidas recorde, salários que não crescem, inflação que silenciosamente taxa os cidadãos do mundo, retirando lentamente o seu poder de compra.

Graças aos bancos centrais (uma menção especial aos bancos centrais europeu, americano, japonês e chinês), o mundo conseguiu esquivar-se uma crise que se poderia ter assemelhado à Grande Depressão. No entanto, se o verdadeiro problema da Recessão de 2009 estivesse resolvido, isto é, se a máquina económica que somos todos nós, estivesse tão oleada como dizem, tenho a certeza que conseguiríamos suplantar – ainda que com algumas mazelas – o choque económico exógeno que sentimos hoje.

É difícil hoje considerar que dentro de meses não estaremos em crise económica, se é que não o estamos já. Os dados demoram tempo a serem processados e a burocracia é enorme.

A quantidade de negócios fechados levou já ao maior número de pessoas a declararem-se desempregadas nos Estados Unidos desde sempre. Em duas semanas, quase 10 milhões de pessoas pediram o fundo de desemprego nos EUA. Este número não passou do 1 milhão na Grande Recessão. Assim, a pergunta passou não em saber se entraremos em recessão, mas sim em depressão. A não ser que tenham mais de 100 anos, não existe forma de relativizar esta crise.

E não, não voltaremos ao estado inicial pré-corona assim que esta epidemia estiver longe das nossas vidas. Biliões de euros não foram gastos em idas a cinemas, a jogos de futebol, entre tantas outras atividades que caracterizam o mundo em que vivemos. Este é consumo que nunca será recuperado.

Na semana de 20 a 27 de março, todos os cinemas dos EUA arrecadaram um total de 5 mil dólares de vendas (não confundir com lucro). Esse número no período homólogo foi 240 milhões de dólares. Muitas empresas não voltarão a abrir e muitas outras abrirão com um número reduzido de trabalhadores.

Numa altura em que as receitas das 500 empresas públicas mais valiosas dos EUA estagnaram no último trimestre de 2019, parecia já inevitável um abrandamento geral da economia. Se alguma vez virem nas redes sociais ou comunicação social alguém a dizer “ninguém poderia ter previsto isto”, não acreditem. Não só a economia estava a cair, mas também já se sabia que um cenário de pandemia como este iria acontecer eventualmente. Numa sociedade tão globalizada como hoje (para o bem e para o mal), é difícil não conceber um desenvolvimento da situação deste género.

O dano ao tecido social será talvez ainda maior. Como reagiremos se alguém tossir perto de nós? Continuaremos a utilizar apertos de mão para cumprimentar? Todos os tipos de relações interpessoais serão testados, tanto durante a quarentena como depois.

Independentemente de as reações dos governos a esta epidemia serem adequadas ou não (isso dá todo um outro artigo), há que considerar o que vem depois.

É nesta altura que os ideológicos se colocam com as suas teorias de como destronar o sistema e instituir uma nova ordem económica e social, o que quer que seja que isso signifique. Devemos salvar todas as empresas, incluindo aquelas que utilizaram o seu fluxo de caixa para comprar as suas ações e aumentar os prémios do conselho de administração? Devemos deixar todas as empresas falir? Como escolhemos critérios para selecionar as empresas (grandes e pequenas) que recebem dinheiro do Estado?

São este tipo de incertezas que quem está em casa se deveria preocupar, uma vez que quem paga estes “pacotes de salvamento” são os contribuintes. A crise de saúde poderá não chegar à vossa porta, mas a económica sim.

Infelizmente, as políticas tomadas há dez anos entorpeceram a capacidade de resposta a crises, tanto por parte dos governos como do sector privado. Neste momento não existe forma de resolver esta confusão sem imprimir mais dinheiro, desvalorizar as moedas, resgatar empresas e endividamento geral.

Todas estas soluções colocam em causa a confiança nos governos, e, mais importante, na moeda. Supor que podemos imprimir dinheiro ad eternum é uma falácia, porque supõe que é possível criar valor vindo do nada, o que é claramente falso dado o princípio de conservação da energia. Portanto, ou o dinheiro não significa nada (e aí voltamos a um padrão-ouro ou a sociedade colapsa), ou então o custo de “imprimir dinheiro” ainda não se materializou. De qualquer das formas, empurrar as nossas dívidas com a barriga poderá ter consequências sérias.

As reais consequências destas medidas ainda estão para vir. Aquilo que será inicialmente um choque deflacionário (diminuição drástica da procura, com redução da oferta), poderá transformar-se num clima de inflação em velocidade de escape, devido às políticas monetárias intervencionistas. Políticas essas que beneficiam as maiores empresas e os mais ricos, daí o aumento da desigualdade nesta década. Poderíamos, em vez de favorecer as elites, apoiar o pequeno consumidor e os empreendimentos micro/familiares.

Por outro lado, também me parece pouco eficaz dar diretamente dinheiro aos consumidores. De que serve um cheque se depois não podemos sair de casa para o levantar? Não existem opções fáceis neste jogo, em parte porque tomamos a saída mais fácil há dez anos.

A canalização do sistema financeiro é mais complexa que nunca. São milhões as peças que todos os dias se movimentam para mantê-lo a funcionar. Ninguém sabe verdadeiramente o que se passa no seu interior, nem mesmo os PhDs (talvez esses serão os que menos sabem) que decidem quanto dinheiro imprimir a partir de Frankfurt.

A banca, antes um centro de oportunidades para cidadãos ambiciosos, é agora um monstro diabético que pede a sua dose de insulina aos bancos centrais e aos governos todos dias. É um sistema que não se consegue colocar em pé sozinho.

O COVID-19 só veio dar o golpe final a uma economia em overdose.

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