Fazer mais com menos?

Neste contexto muito específico, no meio de uma pandemia, após a interrupção das competições durante 3 meses e, no caso do Sporting, com muitas novidades… ou não se tivesse contratado um dos treinadores mais caros da história do futebol mundial, com o lançamento massivo de jovens na primeira equipa e já que a discussão do clube é actualmente tema em conferências com convidados, “interessantes” ( as aspas são obviamente intencionais e deixo ao leitor a interpretação livre da minha intenção ), considerei uma boa altura para fazer uma pesquisa aos últimos largos anos dos relatórios de contas dos 3 grandes do futebol português, por curiosidade minha, e porque é comum a abordagem a vários temas de natureza económica/financeira, conjugada com a desportiva, para daí suportar determinadas conclusões, mas muitas vezes é uma abordagem falha de factos (números, pois então).

Hoje, pretendo deixar algumas notas relativamente ao que normalmente se refere como “orçamentos”, ou seja , Custos com o Pessoal ( salários ) dos 3 grandes desde 2002 (a data de inicio não é uma coincidência).

Esta rubrica, obviamente, não esgota os custos com o futebol (ou “investimento”) que há nas amortizações de passe a considerar entre outras rubricas, mas é um importante indicador de avaliação e análise. Como nota adicional, há diferenças no tratamento contabilístico entre as 3 SADs.

A composição societária é diferente e há flutuações na rubrica que se explicam, não porque se “investiu” mais ou menos, mas porque, e por exemplo, houve lugar a prémios por participação na Champions League. Essa flutuação existe, mas não é suficientemente relevante para que enviese a análise, de forma significativa. Mesmo que, e como é o caso, haja dificuldades em encontrar todos os RC’s anuais e haja alguns em falta no quadro. Quadro que é, em boa parte, auto explicativo.

Caberá a cada um, caso o entenda, encontrar as suas explicações para os números, justificação para os mesmos e depois a sua extrapolação para a performance desportiva.

Pessoalmente, parece-me evidente que, salvo períodos e contextos específicos, o dinheiro é obviamente decisivo na competitividade do futebol. Quem investe mais, ganha mais. Corrijo… quem investe mais e de forma consistente e constante, ganha mais.

Ganha quem consegue encontrar soluções de investimento e suporte desse investimento, a médio e longo prazo. Serve de pouco a aposta pontual numa dada época (quando muito, para a época em causa), se não houver continuidade para aquilo que se chama de ciclo “virtuoso”.

Não é surpresa que o Sporting em nenhuma das muitas épocas em causa, seja a equipa com o maior orçamento.  Nunca o foi. Quando muito, esteve próximo dos rivais, como em 2002, ano do último título e o equilíbrio a este nível vinha das épocas anteriores. Também esteve próximo nas épocas de 2012, 2013 e 2018. Mas nestas, quando o ponto de partida era de um diferencial brutal para os outros.

Veja-se o (forte) aumento consistente no caso do FCP que, de valores idênticos ao SCP no ano de 2002 até 2010, teve os seus Gastos com o Pessoal a andarem sempre perto do dobro dos do SCP. No caso do SLB, o aumento foi mais modesto, mas ainda assim também consistente e após épocas com valores próximos aos do SCP, praticamente duplicava os mesmos em 2010.

O maior diferencial a este nível é, sem surpresa também, nas épocas 2014 e 2015, face ao corte orçamental do SCP na casa dos 50% e que representava 1/3 do orçamento do FCP e menos de metade do SLB.

Como é sabido, o SCP iniciou em 15/16 uma aproximação que entendo ser absolutamente necessária, subindo de 25M para 48M (embora boa parte se justifique pelo salário de Jorge Jesus), depois para 63M e em 2018 para 73M, ainda longe do FCP, mas um pouco mais que o SLB.

O maior diferencial do SCP para os rivais na época de 2019 explica-se em muito, e porque não houve alterações significativas no caso do Sporting, pela maior margem de manobra de SLB e FCP face à enorme subida das receitas da Champions (e daí a aposta fortíssima do SCP, que alguns dizem ser um “all in”, no ano de 2018).

Em jeito de conclusão, o Sporting precisa de enquadrar a sua capacidade de investimento com a sua capacidade de gerar receitas, sim, como qualquer empresa, mas precisa de definir objectivos tendo em conta a dimensão do clube e a sua história.

“Fazer mais com menos” é bonito, mas normalmente quem tem mais, é que faz mais. Para chegar lá com menos, é preciso ter os mais competentes do nosso lado e é de sua responsabilidade não só fazer mais, mas criar condições para que, no mínimo, o diferencial para os outros não seja avassalador. É que se o for, não há milagres.

Pode-se ganhar com orçamentos menores (de forma constante, mais difícil), mas com diferenças de 1 para 2 ou até de 1 para 3? Se houver alinhamentos planetários e esses são raros.

Como nota final e sem pretender avaliar desempenhos das SADs dos rivais, há factos interessantes que no entanto, merecem referência. O FCP foi a equipa que gastou mais, quase sempre. Com resultados desportivos condizentes, na primeira metade do período em análise. Não é o que tem acontecido nos últimos anos.

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