Gente de bem

Corria o ano de 1995. Ainda eu não tinha chegado aos 30 anos, guardava alguma ingenuidade da juventude cheia de ideais e confiança no futuro.
Pedro Santana Lopes era o Presidente do Sporting Clube de Portugal que tinha sucedido ao homem das águas, Sousa Cintra.

O treinador era Carlos Queiroz, um homem com uma imagem abrilhantada pela conquista de dois campeonatos mundiais de juniores sub 20 em 1989 e 1991. O seu mérito foi reconhecido por todos e Sousa Cintra não hesitou em ir buscá-lo despedindo Bobby Robson que estava a fazer uma boa época no campeonato nacional. Decisão muito discutida ainda nos dias de hoje, pois o Inglês foi logo resgatado por Pinto da Costa acabando por ser campeão no rival. Carlos Queiroz acabou vencedor da Taça de Portugal com uma equipa recheada de talentos, quiçá uma das melhores equipas do Sporting, embora talvez demasiado jovem.

A minha candura, um misto de inocência e inexperiência, levou-me a acreditar que todas estas personagens defenderam em primeiro lugar os superiores interesses do Sporting. Não fui nessa altura capaz de ver mais longe, de ver que estas figuras precisavam de holofotes para serem reconhecidos e tornarem-se mais visíveis e populares para a opinião publica. Essa visibilidade permitiria almejar voos mais altos. A ambição pessoal esteve sempre em primeiro lugar, sendo neste caso os resultados desastrosos da gestão financeira do clube testemunha desse facto. No entanto, infelizmente esse não era um critério que afectasse as suas imagens e muito menos perturbasse o mais preocupado dos jornalistas.

Não é difícil perceber que muito indivíduo conquistou o poder através da visibilidade televisiva. Santana Lopes, Sócrates e Marcelo Rebelo de Sousa, entre outros, são casos paradigmáticos. Numa fase em que o jornalismo passou a ser praticado por muita gente formada a nível universitário especificamente para essa actividade, ironicamente os media chegaram à conclusão que seria mais fácil convidar comentadores do que “fazer jornalismo”. Trata-se do jornalismo preguiçoso.

Ironicamente aconteceu quando supostamente teriam maiores competências para melhorar o trabalho da classe. Estes comentadores passaram a influenciadores de opinião publica e o jornalismo isento que se baseia exclusivamente na informação e que permite-nos formar a nossa própria opinião, praticamente desapareceu.

Além disso, o mundo do Futebol passou a gerir enormes volumes de dinheiro, atraindo todo tipo de gente para o seu núcleo, desde o mais iletrado ao “senhor doutor” e não somente os chamados “homens da bola”. Tal como na política, muitos chegaram a estes meios com escassos recursos e surgiram rapidamente com muito mais poder e património.

Pequeno à parte irresistível nesses tempos longínquos, o título de senhor doutor alargou a sua abrangência a toda uma geração licenciada, altiva e orgulhosa desse posto adquirido. Muitos nem licenciados eram, mas gozavam do mesmo estatuto por demonstrar uma imagem de poder económico.

Foi nessa altura que comecei a prestar mais atenção a estes “detalhes” e a despertar para a realidade. Não há almoços grátis. O mundo da gente de bem é feita de troca de favores. O Sporting seria um “case study” de situações curiosas até 2013.

Nesse ano houve eleições para a presidência entre José Couceiro e Bruno de Carvalho, depois dum mandato manchado de ocorrências e resultados que nos deram razão para nos envergonharmos do clube que apoiamos.

Bruno de Carvalho pareceu-me nessa altura, um homem inexperiente nas andanças do futebol com um ego sobredimensionado que nada contribuía para a sua imagem. Couceiro era a continuação do status quo, da gente de bem que sempre gravitou na direcção do clube, nos Stromps, no conselho leonino, nos ditos notáveis.

Bruno ganhou desta vez sem margens para dúvidas nem situações suspeitas, quebrando abruptamente a linhagem de continuidade que estava afinal de contas a levar o clube para o abismo. Confesso que desconfiei no início, mas a forma como algumas decisões foram tomadas e a maneira de gerir o clube numa situação de extrema dificuldade conseguiu conquistar-me rapidamente.

Foi a imagem da mudança de gente de bem para gente que não tem medo de vestir o fato macaco para defender os superiores interesses do clube. E fê-lo de modo categórico, com resultados brilhantes. No entanto, a sua irreverência e incompatibilidade com o sujo mundo do futebol trouxe muitos inimigos, dentro e fora do clube.

Muitas regalias injustificadas de pessoas que sempre gravitaram à volta do clube foram interrompidas, corrupção no futebol foi denunciada, guerra com a comunicação social que se encontra vendida a interesses com agendas próprias que se afastam do intuito de informar. Enfim, foram muitas batalhas travadas ao mesmo tempo, talvez por inexperiência, mas acima de tudo por achar que estaria a fazer o mais correcto, com a integridade com que foi educado.

Tanta frontalidade fez muita gente de bem ficar ofendida, o que os fez cerrar fileiras. Nunca ninguém tinha posto em causa tanta coisa considerada como estabelecida. No mundo da gente de bem, todos se protegem, ninguém os acusa. Bruno não teve receio de chamar os bois pelos nomes e enfrentou uma catadupa de pessoas ofendidas não só do futebol, que não hesitaram em ataca-lo com todos os meios necessários, muitas vezes desprovidos de escrúpulos e integridade. Afinal de contas, este homem era uma ameaça aos olhos desta gente.

Não tenho duvida nenhuma que Bruno de Carvalho fez mais pelo futebol Português do que todos os outros que por lá cirandam há décadas, com particular destaque no meu Sporting que fez o meu orgulho renascer das cinzas.

O seu afastamento polvilhado de humilhação é testemunha da mesquinhez patente na personalidade portuguesa. O Português tem uma característica sádica de se satisfazer com o sofrimento alheio, talvez por servir de consolo que é melhor acontecer a outros do que a nós próprios. A forma como as noticias são dadas e exploradas testemunham esse facto. O povo gosta assim e os media assim fazem.

Foi considerado inocente, mas isto agora não é notícia. Não enche capas de jornais nem faz programas ininterruptos de comentadores ressabiados, escolhidos a dedo e sem contraditório. Este é o jornalismo actual em Portugal, gerido por pessoas de bem. Pagamentos de favores, talvez…

Este clube restrito, que muitos chamam de elite ou notáveis da sociedade portuguesa, são apenas indivíduos que andam de bicos de pés numa feira de vaidades que os leva à arrogância soberba de pensar serem superiores e com maiores direitos que o simples povinho. No Sporting actual estão a trabalhar para que esses seres inferiores deixem de ter voto na matéria nos desígnios do clube e corremos sérios riscos de concretizarem esses intentos.

Serão estas as pessoas de bem que queremos que continuem a traçar o futuro do nosso clube, do nosso futebol, da nossa política, do nosso país, dos nossos filhos?

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