O que melhorou com Rúben Amorim

Isto  vai ser um bocadinho complexo, vou tentar explicar tudo devagarinho.

Antes de mais, devo explicar que estou consciente de que os parâmetros que recolhi não representam verdades absolutas, e que a amostragem que temos é demasiado pequena para conclusões.

Ainda assim, o que não falta são colunistas e afins que sentenciam coisas como “a equipa melhorou” sem apresentar um único dado que sustente o que afirmam. Penso que não estarei a cometer um crime ao recolher dados para tentar chegar a uma conclusão.

Já agora, quando comecei a fazer esta análise não fazia a menor ideia de como iriam ser os resultados. Tenho um vício estúpido de primeiro tentar descobrir coisas sobre o assunto, e só depois tirar as minhas ilações a partir delas (em vez de tirar conclusões, e depois tentar descobrir argumentos para sustentá-las, como as pessoas inteligentes fazem).

O que faz de um treinador bom?

Conheço três respostas populares:

1- Ter bons resultados

2- Mete a equipa a jogar bem

3- Potencia o rendimento dos jogadores

Qual destas vamos avaliar? Todas, pois claro!

Então, de que esperamos? Vamos começar!

RESULTADOS

A primeira coincidência aqui: entre o jogo com o Aves e o jogo com o SLB, Rúben Amorim tem uma média de 1.91 pontos por jogo. Entre o jogo com o Aves e o jogo com o SLB, Silas tem uma média de 1.91 pontos por jogo.

Mas, claro, há jogos que são em casa, jogos que são fora, entre outros factores que modificam a dificuldade. Seria justo arranjar-se uma forma de ter isso em conta.

Fui, portanto, ao oddsportal.com ver as odds de vitória para cada jogo. E deparei-me com isto.

Antes de mais, uma nota: devido à ausência de público, os jogos efectuados durante o período pandémico têm um factor casa reduzido. Ou seja, durante esse período, nas odds, reduziu-se ligeiramente a vantagem dos jogos em casa (e também se reduziu ligeiramente a desvantagem das odds nos jogos fora).

Quanto aos dados:

– Embora Rúben Amorim tenha tido os dois jogos mais difíceis, 8 dos seus 11 jogos foram na zona verde

– Silas tem 10 dos seus 17 jogos na zona alaranjada/vermelha.

– Na zona verde, Silas tem 7 vitórias em 7 jogos, enquanto Rúben Amorim tem 2 empates em 8 jogos.

– Todos sofreram derrotas nos jogos com a odd muito baixa.

– O jogo mais difícil (fora clássicos) que Rúben Amorim teve, conseguiu um empate. Silas, no jogo com a odd mais semelhante a esse jogo (a ida aos Arcos), também conseguiu um empate.

– Há 9 jogos com odds entre 1.7 e 2.2. Rúben não participou em nenhum deles. Portanto, não há termo comparativo para os 6 jogos que Silas efectuou nessa região. (Silas venceu 3 e perdeu outros 3).

Resumindo, tudo semelhante. Ambos ganham os jogos fáceis, ambos vacilam (de forma idêntica) quando a dificuldade aumenta.
Nos jogos de dificuldade intermédia-alta, em 11, apenas 1 é de Rúben Amorim, e 7 são de Silas. Nos jogos de dificuldade intermédia-baixa, em 11, apenas 2 são de Silas e 7 são de Rúben Amorim.

Portanto, para além de uma engraçada coincidência simétrica, temos muito pouco por onde comparar estes jogos com a devida justiça. Mesmo assim, os resultados são (muito) semelhantes.

JOGAR BEM

O que é jogar bem? Nenhum de nós sabe ao certo. Mas penso que será relativamente seguro afirmar que quanto mais perto a equipa estiver da vitória, melhor jogará.

E como é que uma equipa se coloca mais perto da vitória? Bem, se o objectivo é marcar (e não sofrer) golos, penso que se poderá postular que quanto mais ocasiões para marcar golo conseguirmos, e quanto menos ocasiões proporcionarmos aos nossos adversários, melhor jogaremos.

Para determinar se conseguimos mais ou menos situações de golo, vou propor uma consulta ao https://fivethirtyeight.com/.

Eles criaram um modelo que avalia as performances das equipas com 3 parâmetros:

– Golos ajustados: Isto ajusta o resultado consoante o peso/impacto do golo no jogo. Por exemplo, se estiver 1-0, e uma equipa marcar o 1-1 aos 90+6, esse golo tem um peso enorme no jogo. Se, por outro lado, uma equipa está a ganhar 5-0, e marca o 6-0 aos 90+6, esse 6º golo tem um peso muito reduzido.

– Golos esperados: Eles avaliam as situações que uma equipa cria num jogo e determinam quantos golos é que seria normal que essa equipa tivesse marcado. Por exemplo, cada penalti tem 80% de probabilidade de dar golo. Se uma equipa tiver 2 penaltis num jogo, é esperado que se marquem 1.6 golos (que é 80% vezes os dois penaltis). Eles calculam a probabilidade de cada situação, conforme factores como ângulo, ou posição do remate, e determinam quantos golos é que “em condições normais” cada equipa marcaria, conforme o que aconteceu no jogo.

– Golos esperados sem remates: É semelhante ao anterior, mas retirando os remates da equação. Por exemplo, se forem precisos 30 cruzamentos para ocorrer um golo, uma equipa que faça 15 cruzamentos (metade de 30) teria 0.5 golos esperados. Eles usam como exemplo que cada recuperação de bola na área adversária dá em golo 9% das vezes e um passe recebido no meio da pequena área dá golo 14% das vezes. Se somarmos esses valores de cada vez que essas situações ocorrem, ficamos com uma expectativa de quantos golos é que a produção da equipa deveria proporcionar.

No fim, fazendo uma média entre estes três parâmetros, conseguimos determinar um factor ofensivo e um factor defensivo.

Eles não revelam exactamente o algoritmo e todos os parâmetros para os cálculos. Mas temos um critério imparcial que nos permite verificar se estamos mais perto ou mais longe do golo – ou seja, se estamos a jogar melhor ou a jogar pior. Aqui tem a explicação que eles dão, caso queiram: https://fivethirtyeight.com/methodology/how-our-club-soccer-predictions-work/


Recolhi os dados e, antes de mais, aqui está a tabela completa da recolha, só para verem como ela fica feia sem maquilhagem:

Ok, agora já com tratamento feito. Vamos começar pela tabela final, com a média dos vários jogos. Depois, mais à frente, aprofundarei a análise, para quem quiser.

Temos, então, o comparativo entre os 4 treinadores desta época (os dois primeiros com uma amostra muito reduzida, claro): a média dos factores ofensivos em todos os jogos, a média dos factores defensivos em todos os jogos, e aquilo que chamei de “Factor”, que é apenas a diferença do factor ofensivo pelo defensivo. Para clarificar, por exemplo, no caso de Leonel Pontes, estes dados indicam que o que a equipa produziu. Nos jogos orientados por Leonel Pontes, seria normal marcar-se 1 golo por jogo (Ofensivo), e sofrer-se 1 golo por jogo (Defensivo), sendo, por isso, a diferença 0 (Factor).

Muito bem, primeiro, em termos de nível de dificuldade, os jogos de Rúben e de Silas são quase iguais, com apenas uma décima de diferença. Isto seria excelente, pois tornaria a comparação mais fiável…não fosse, como vimos atrás, isto dever-se, precisamente, a uma discrepância enorme de valores (Silas tem os jogos mais difíceis e os jogos mais fáceis, Rúben tem os jogos no meio, no fim a média dá igual).

Antes de passarmos a Silas e Rúben Amorim, convém destacar o quanto Keizer domina em termos ofensivos….e como é dominado em termos defensivos. O problema é que só é 0.2/0.4 melhor que Silas e Rúben Amorim, em termos ofensivos, e 0.8 pior (supostamente, significa que com ele se sofreria o dobro dos golos de Rúben Amorim, e marcar-se-ia mais 1 golo a cada 5 jogos).

Indo para os dois sujeitos da comparação, Silas e Rúben, Podemos ver que Silas tem ligeira vantagem em termos ofensivos, com Rúben a ter uma ligeira vantagem a nível defensivo, sendo que o factor, no final, oscila apenas 1 décima.

A vantagem é de Silas, mas penso que podemos, face à vestigial diferença registada entre ambos (em todos os parâmetros), considerar isto um empate.

De qualquer modo, seja empate, ou vantagem para Silas, não há absolutamente nada que sugira a tal “melhoria” que muitos comentadores afirmam ter visto (sem a terem justificado com nenhum tipo de fundamentação, tanto quanto saiba, visto não acompanhar muitos dos comentadores, convido qualquer leitor que esteja a par de alguém, a informar-me nos comentários).

a) Ofensivo

Antes de mais, vou só explicar o que estes números significam, muito por alto. Por exemplo, pegando no melhor e no pior jogo, em termos de produção ofensiva (Santa Clara e Setúbal, respectivamente), temos um factor ofensivo de 3, e um factor ofensivo de 0.37. Quer isto dizer que as situações que ocorreram ao longo do jogo (remates, expulsões, recuperações, golos, cantos, etc) levam a que o normal fosse o Sporting ter marcado 3 golos contra o Santa Clara…e 0.37 golos contra o Setúbal. Ou seja, se todos os jogos fossem como o jogo contra o Santa Clara, seria expectável que o Sporting marcasse uma média de 3 golos por jogo. Se todos os jogos fossem como o jogo com o Setúbal…seria expectável que o Sporting marcasse 1 golo a cada 3 jogos.

Portanto, não me ocorre nenhuma tendência que me leve a concluir que a equipa produza mais ofensivamente.

Aliás, podemos ver que Rúben Amorim tem 4 jogos nos 6 jogos com menos produção ofensiva, sendo que 3 deles não são de dificuldade elevada (ambos os de Silas nessa região são de dificuldade elevada).

O jogo de Rúben Amorim com maior produção, foi a recepção ao Aves (2 expulsões e um penalti são o tipo de ocorrências que fazem disparar estes números), que foi um jogo atípico (o jogo de Silas contra o Santa Clara, infelizmente, também foi atípico, sendo um jogo com uma produção ofensiva que uma equipa que quer lutar pelo título deveria reproduzir mais vezes ao longo da temporada).

b) Defensivo

A explicação para o que significam estes números é igual à explicação feita no parâmetro anterior. Só que, neste caso, são golos sofridos, em vez de golos marcados.

Mais uma vez, podemos verificar a generosidade defensiva de Keizer.

Como tem sido regra, tudo equivalente, nenhum sinal que evidencie algum tipo de melhoria; nos jogos com dificuldade mais acrescida, tanto Rúben como Silas revelam dificuldades. Nos jogos mais fáceis, conseguem ambos produção defensiva sólida.

Embora Rúben Amorim consiga os dois melhores jogos em termos de produção defensiva, um bocado à imagem do que acontecia no parâmetro ofensivo, são dois jogos atípicos (um contra um Aves reduzido a 9, e outro contra um Setúbal de Lito Vidigal em desespero pela permanência, que joga com uma filosofia anormalmente anti-ofensiva, num estilo que o meu avô carinhosamente apelidava de “Táctica do Cavalo Cansado”). Em todos os outros, a coisa permanece equilibrada.

c) Total

Este último parâmetro é a diferença entre os factores ofensivos e os factores defensivos.

O pior jogo da época terá sido o jogo no Dragão. Penso que todos concordaremos que isso aconteceria independentemente de quem se sentasse no banco do Sporting.

Nos melhores resultados e nos piores resultados, à excepção de um péssimo jogo em Barcelos e um magistral jogo em Santa Clara (uma excepção para cada lado), a diferença de qualidade, novamente, parece ter mais a ver com a qualidade do adversário do que com o treinador.

RENDIMENTO DOS JOGADORES

Finalmente, o último critério utilizado.

Não sabia bem como avaliar isto sem ver jogo a jogo com um bloco de notas. Mas, mesmo que fizesse isso, dependeria sempre da minha parcialidade. Portanto, fui ao SofaScore, e apontei as classificações médias dos jogadores por jogo.

Eu facilito: a média com Silas é de 6.93 e a média de Rúben Amorim é de 6.94. Uma centésima.

Conclusão

Olhando para todos estes parâmetros, todos eles (sejam globais, seja a prestação dos jogadores, seja ofensivo, seja defensivo, ou mesmo os resultados) apontam para uma só conclusão: que a equipa manteve o rendimento entre Silas e Rúben Amorim (ah, claro, e que tanto Silas como Rúben Amorim são melhores que Keizer e Leonel Pontes).

Face a tudo isto, parece-me estranho que haja tanto entusiasmo para o talento de Rúben Amorim e tanto pessimismo quando se olhava para Silas. Na realidade, o Sporting melhorou imenso com a chegada de Silas (em relação a Keizer/Pontes), ao contrário de Rúben Amorim (em relação a Silas).

Haverá aqui factores que influenciem, como Bruno Fernandes (os valores médios de Silas pós saída de Bruno Fernandes mantém-se semelhantes), o facto de Silas ter tido que pegar no leme a meio de uma tempestade, enquanto Rúben teve direito a uma mini pré-época, ou a presença do Covid, que terá influenciado muitos parâmetros.

Tudo isto serão factores aceitáveis, mas o que se está a avaliar é se deu para verificar melhorias na equipa com a chegada de Rúben. E os dados que recolhi – que são vários e costumam ser fiáveis – não permitem verificar qualquer melhoria. Poderá haver um viés devido às pequenas férias de confinamento terem sido seguidas de uma série de jogos fáceis (com o Vitória pelo meio, onde se empatou). Isto poderá ter permitido encarar os jogos com outro ânimo, sem o desgaste que vinha desde a pré-época a ver o futebol que sabemos.

Penso que há argumentos para afirmar que a prestação do Sporting esta época esteve mais dependente dos jogadores que teve ao dispor e dos adversários que defrontou, do que se era Silas ou Rúben Amorim que estava ao comando.

Eu – pessoalmente – sempre tive ideia de que Silas era competente, mas dispunha de uma equipa fraca (para além de dar ideia de nunca ter tido quem o apoiasse). Fico, portanto, mais descansado ao saber que os dados não parecem indicar que o Sporting tenha ficado a perder no departamento do treinador.

O que preocupa é que, embora não pareça que tenha ficado a perder, também não encontro dados que me indiquem que tenha ficado a ganhar. E, portanto, sabendo que se optou por pagar quase 15M (fora os ordenados, que já vi dizerem que levará a um total a rondar os 25M), por uma mudança vestigial, a confirmar-se, demonstrará que foi feito um enorme investimento no diagnóstico errado (têm sido mais os erros deste foro do que aqueles que normalmente seriam permitidos a algum administrador de uma empresa com 1/10 da dimensão do Sporting).

Com o agravar de (quanto a mim) se ter desrespeitado um profissional que sempre deu o seu melhor pelo clube e a quem não encontro motivos para ser responsabilizado pelo estado das coisas (até estabilizou a coisa, no início, que se encaminhava para proporções godinholópicas), sem que lhe tenha sido dada oportunidade para demonstrar o seu valor.

TL;DR: #justiçaparasilas #plantelpararuben

1 thought on “O que melhorou com Rúben Amorim

  1. Grande post, Luis. Excelente análise. Eu sigo o Nate Silver nas coisas da política; não sabia que ele se tinha metido também no soccer.
    Se precisares de ajuda em mais análise estatística, terei todo o gosto em ajudar. Sendo esse o caso, envia-me um email ou DM no twitter (@miguelalves73)

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