O Sporting de uma Leoa

É uma história de Amor o que vos vou contar! Daquelas que acontecem uma vez na vida e que quando acontecem sabes logo que estás agarrada para sempre.

Sentes na pele, sentes no coração, sentes que todos os teus sentidos estão em perfeita sintonia com os teus sentimentos. Podemos e esperamos sentir isso por alguém na vida, o/a tal “especial”, mas acreditem que o estado de encantamento não dura muito. Se sim, os meus sinceros parabéns.

Pois esta “coisa inexplicável” que nos tolda até o discernimento também se sente por um Clube! E de que maneira!

É assim o Amor que tenho ao Sporting e que sempre terei! Se existe alguma coisa em mim que nunca se alterará é o que sinto pelo Leão!

Nasci longe de Alvalade! Vivi e vivo longe de Alvalade! Um sofrimento atroz o que passo por não conseguir estar perto do que mais amo sempre que quero…e quero sempre.

O “chamamento” veio bem cedo.

Nem sei bem precisar quando. Lembro-me que com os meus 6,7 anos, sem ainda ter visto um jogo ao vivo sequer ou ainda não ter sentido a vibração do Estádio, já era uma Leoa na defesa do Sporting. Andava sempre à “porrada” no sentido literal da palavra com todos aqueles que se atravessem a gozar com o meu Clube e a chamar-me de lagarta. Chamavam-me uma vez e não chamavam mais vez nenhuma. Leoa se faz favor! Bem cedo fiquei conhecida na minha terra, no meu bairro, na minha escola, com os meus amigos e amigas….o que acontece ainda até aos dias de hoje.

Talvez tivesse nascido comigo, não sei… Este sentimento de pertença, de proteção, de irmandade, de defesa constante de um Clube que para mim não era mais do que uma miragem, mas que sentia cá dentro forte e arrebatador. Como acontece com o primeiro amor. Puro, imaculado, quase infantil de tão ingénuo que é, sem querer nada em troca. Gostas ou amas, o que lhe quiseres chamar, mas nem sabes explicar bem o porquê.

Era muito nova para encontrar as palavras certas que pudessem satisfazer a ira e o entendimento das pessoas sobre o que sentia e, claro, fui sempre muito mal entendida e interpretada por todos. Aquilo que nós Sportinguistas de Raça, dizemos “Eles sabem lá” é a mais pura das verdades. Eles não sabem porra nenhuma!

Sempre fui uma Maria Rapaz e a menina do papá. Andava com ele para todo o lado. Aos fins-de-semana acompanhava-o nos jogos que arbitrava nos Distritais. O meu pai era árbitro de futebol por paixão. Nunca ganhou nada com isso, porque não quis. Muitos tentaram comprá-lo, mas nunca o conseguiram. Apitava pelo prazer que tinha ao jogo e pela correta aplicação das leis dentro das 4 linhas. Foi soldado no Ultramar e tinha muitos fantasmas com ele. Mas de lá trouxe o rigor e a exigência. Sempre foi incorruptível. Todos tinham e têm o seu preço mas o preçário dele só tinha dois valores: Honestidade e Transparência.

Falava muito comigo sobre o jogo e os jogadores e eu ouvia-o encantada. Falava também sobre os valores. Sobre os princípios que nos fazem ser aquilo que somos! “Somos humildes filha, dizia, mas fieis às nossas crenças, aos nossos valores”. Sentia um conforto ao ouvi-lo falar assim.

A primeira vez que ouvi o lema “Esforço, Dedicação, Devoção e Glória” foi da boca dele. Tudo fazia sentido. O Sporting era o meu Pai. A pessoa que mais amava no Mundo!

Fui crescendo e aprendendo que não é fácil ser Sporting. Não é para todos. Muito menos para quem vive longe da Casa Mãe. E o Sporting não era um Clube próximo das suas gentes. (Houve um “maluco” que mudou esse paradigma, mas isso é outra história)

Para nós era uma festa quando chegava o Verão, pois com ele chegava a Volta a Portugal e o Sporting vinha até nós. A emoção de ver as nossas cores nas estradas mal alcatroadas na altura, as sirenes das motas dianteiras da Policia a abrir caminho e nós a procurar desenfreadamente entre tantas cabeças a mancha verde e branca naquele colorido de atletas era qualquer coisa inexplicável. O meu pai levantava-me sempre no ar para que a nossa bandeira se visse bem lá no alto e numa dessas vezes ver o Joaquim Agostinho sorrir para mim é das imagens que irei levar comigo para sempre. “É o Sporting, É o nosso Sporting!”

Quem é de Lisboa nem imagina o que significa o Ciclismo para nós. (Mais uma vez digo que “um maluco” compreendeu tudo isto e trouxe o Ciclismo de volta mas isso também é outra história triste)

Enquanto escrevo, as lágrimas caiem-me de fio, porque sinto o meu pai aqui, comigo, a lembrar-se de tudo o que vivemos. Das tardes passadas na ombreira da porta a ouvir os relatos do hóquei em patins. Sim eu ouvia relatos de hóquei que se realizavam na Nave e era como se lá estivéssemos. Tantos golos que gritámos quando a redondinha entrava! Cada golo um gelado! Lembro-me como se fosse hoje! O Sporting para mim nunca foi nem nunca será só Futebol.

E um dia fui a Alvalade e pronto…o meu coração, a minha alma ficou lá! Por mais voltas que dê, por mais sítios que conheça, por mais que queira negar a minha essência, nunca serei verdadeiramente Eu sem o Sporting na minha Vida! Quem me conhece sabe que sou assim. Não é fácil, não tem sido fácil e agradeço a quem me consegue aguentar sendo desta maneira.

Todas as histórias de Amor têm um fim. A história do meu pai nesta vida já acabou. Recordo com carinho quando ia com ele a Lisboa fazer os tratamentos que precisava, antes de voltarmos para casa, passávamos por Alvalade para ganhar forças e pelo canto do olho via que chorava. Sabia que não iria ficar por cá muito tempo e não queria morrer sem ver o seu Sporting Campeão. E viu! Agradeço todos os dias a Deus por isso! Poucos meses antes de partir, celebrámos felizes a conquista do Campeonato ao fim de tantos, tantos anos. Rebentei com a buzina do carro e fomos os últimos a recolher a casa com as bandeiras e os cachecóis já a noite ia longa.

Depois desse Campeonato só mais um que conquistámos. Temos tido pouca Glória para tanto Esforço, Devoção e Dedicação. Não é normal. Não pode nem nunca poderá ser. O Sporting foi criado para ser vencedor, enorme, tão Grande como os melhores dos melhores!

Como as lindas histórias de amor, esta relação tem que ser vivida intensamente em cada segundo de cada minuto de todas as horas da nossa vida. Só assim faz sentido.

Esta história é a minha, mas também pode também ser a tua. No fundo, com outros contornos e personagens esta história bem pode ser a de todos nós. Por isso, aguentamos firmes e resilientes, podemos até desanimar não nunca desarmamos. Um Clube com tantas diferenças, com tantas divergências, com tantas correntes contrárias é Incrível como ainda se mantém com tantas adeptos jovens.

Só existe uma razão para Isso: Amor e Paixão!

O Amor e esta Paixão que todos temos pelo Sporting é inesgotável, é de morte, está na nossa pele, faz parte do nosso ADN.

O SPORTING SOMOS NÓS!

E para que o Clube se aguente temos que ser fortes, unidos, pôr orgulhos e protagonismos de lado, pois sem Sporting nada nem ninguém no Sporting interessa. O que nos une terá que ser SEMPRE muito mais forte do que aquilo que nos separa.

Não deixem nunca morrer este Amor!

Eu não vou deixar!

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