Quanto contribuíram os avançados dos 3 grandes?

Sempre que estamos a conversar sobre avançados, seja qual for o âmbito, as idades, a etnias, ou os gostos musicais dos intervenientes, surgem, invariavelmente, dois chavões (ou uma qualquer variação dos mesmos).

O primeiro é “um avançado vive de golos”.

O segundo é “nem só de golos vivem os avançados”.

Ambos serão verdade…a menos que não o sejam, claro.

Mas, independentemente da astúcia argumentativa por parte do representante de cada uma dessas escolas de pensamento, uma coisa é clara e inequívoca: o resultado dos jogos depende dos golos. Está escrito nas regras e desconheço alguma forma de interpretá-las de outro modo.

Para além disso, os resultados são o que definem a tabela classificativa. E é a tabela classificativa que define quem ganha campeonatos, quem saca os milhões da Champions, e por aí adiante.

Como tal, penso que todos concordaremos que os golos são importantes para os destinos dos clubes, e, por modus ponens, um jogador que contribua com mais golos tornará o seu clube mais próximo do sucesso.

Por isso, decidi ir vasculhar o transfermarkt em busca dos números dos avançados. E tratá-los com umas contazinhas muito simples, que irei explicar de seguida.

– recolhi os golos e as assistências. São as contribuições directas. Não estou ao corrente de qualquer local onde se armazenem dados como “vezes que fez grande movimentação” ou “demonstrações de visão de jogo”. Portanto, não consigo fazer nenhum levantamento desses dados, quanto mais trata-los. Por isso, contentemo-nos com os golos e as assistências, como faziam os nossos antepassados, nas cavernas.

– Removi os penaltis. O motivo para isso é que o penalti, embora conte para o resultado do jogo como qualquer outro golo, é uma situação extraordinária num jogo de futebol, cujo rácio de conversão é uma ciência paralela. Mais ainda tem uma variação microscópica, o que quer dizer que dependerá mais de quem é escolhido para cobrar, do que daquilo que o jogador contribui, de facto, para o jogo. Sobre este assunto, podem consultar este belíssimo artigo, até tem os dados de conversão de penaltis consoante o signo de quem os cobra: https://instatsport.com/football/article/penalty_research

Ou seja, se um jogador consegue um golo ou uma assistência é porque as suas características proporcionaram essa ocasião. Se cobra um penalti, é apenas porque foi escolhido para o cobrar.

– Nada de “Jogos”. Minutos. Golos por jogo costumam ser um tratamento enganador. Vamos usar um exemplo. Slimani. Na sua época de estreia, teve 8 golos em 26 jogos. Muito fraco, certo? E na sua terceira (e melhor) época, fez 27 golos em 33 jogos. Diferença brutal! Só que o problema é que, na primeira época, ele era suplente de Montero. Na terceira época era titular. Na primeira época fez 1110 minutos. Na terceira, fez 2887. 

Portanto, passamos de uma diferença de “26 jogos, 8 golos vs 33 jogos, 27 golos”, para “138 minutos por golo vs 107 minutos por golo”, que já não é tão acentuado. 26 jogos têm 2340 minutos, Slimani só jogou 1110 deles, pouco mais de 12 jogos (onde fez 8 golos).

Estas coisas fazem a diferença.

– Apenas estou a contar com o campeonato. Desse modo, estamos a colocar os jogadores em pé de igualdade. Por exemplo, no ano passado, Diaby e Nani jogaram ambos 2 jogos inteiros na Taça da Liga. Um jogou contra o Estoril e Feirense. O outro jogou contra o Braga e o Porto. Não parece uma comparação muito fidedigna, pois não? Acontece o mesmo na Europa, ou na taça.

Ter-se mais uns jogos contra um daqueles clubes aos quais, carinhosa e coloquialmente, nos referimos como os “mija na escada”, pode dar uns golitos, enquanto ter jogado uma fase de grupos com Dortmunds, Juventus como clubes do “pote 2” faz imensa diferença.

Se retirarmos isso tudo e compararmos apenas o campeonato, mantemos uma amostra de minutos suficiente para cada jogador, enquanto nivelamos a comparação. Quatro jogos grandes, uma ida a Guimarães aqui, uma deslocação à Madeira ali e uns 14 jogos fáceis em casa para todos.

– Fui aos avançados que jogaram mais do que…hmmm……1800 minutos. Porque decidi assim, e pronto. Ok, a lógica é porque dá 20 jogos completos. Ainda assim, é pouco e poderá ser enganador, como poderemos observar mais à frente. Acredito que o rendimento só começa a ser fiável a partir dos 3000 minutos (convicção pessoal, apenas). Ainda assim, inclui excepções, os avançados actuais, como Vietto e Vinícius, e alguns avançados do Sporting, como Alan Ruiz e Teo. E meti o Pizzi e o Bruno Fernandes, porque contribuíram muito nos últimos 2 anos.
Peço desculpa aos fãs de Franco Jara e Kléber que estejam a ler isto, mas tiveram que ficar de fora, lamento.

– O factor que estou a colocar como mais importante para análise são os minutos que cada jogador necessita para uma contribuição. Ou seja, em média, de quantos minutos necessita cada jogador para contribuir com um golo ou uma assistência.

– Os dados foram recolhidos a 15 de Junho de 2020. Não constam os jogos que se seguiram.

Vamos então aos resultados.

No FCP começa logo com uma boa notícia: Farías está em primeiro. Porque digo que é boa notícia, perguntam vocês? Porque isto é o tipo de cena que nos permite ganhar apostas!

Menos de 70 minutos para cada contribuição é um número absurdo! Certamente, o número nivelaria, caso tivesse jogado mais tempo, mas a sua contribuição, muitas vezes como suplente ajudam a explicar um campeonatozito ou outro que eles ganharam.

De resto, poucas surpresas nos jogadores que se sequem. Destaque apenas para a curiosidade de terem sacado 38 milhões (ou mendilhõeS?) Com o jogador que tinha menor contribuição.

E, não esquecer que Zé Luís tem apenas 1000 minutos, portanto, é muito cedo para considerações.

Desconfio dos dados do Nuno Gomes e do Mantorras, visto que a maior parte dos seus jogos precedem a existência do Transfermarkt. Por exemplo, duvido que Nuno Gomes só tenha cobrado 3 penaltis em todo o tempo que jogou no Benfica. Mas não me vou por com um bloquinho de notas a ver os 11 mil e tal minutos que ele jogou para apontar as assistências que fez.

Vinícius tem um início inacreditável em termos de rendimento. Mas ainda nem 1500 minutos tem, portanto, é costume que tenha números Ronáldicos.

Menos costume, são os números de Jonas. Em quase 10 mil minutos no campeonato, contribuía em menos de 90. Um rendimento destes pode constituir uma argumentação para se considerá-lo um sério candidato a melhor jogador da década, em Portugal. Pelo menos, é inequívoco que terá dado uma contribuição essencial para a conquista do tetra.

Cardozo tem fama de ser goleador. Mas, quando se tiram os penaltis e se somam as assistências, percebe-se que não terá sido tão eficaz quanto se pensa (embora 127 não seja um mau registo).

O jogador que destaco ali é Seferovic. Porque há ali um desajuste enorme devido à anormal época que fez, em 18/19. Em toda a sua carreira, Seferovic tem um rendimento algures entre os 160 e 200 minutos para cada contribuição. Apenas tinha uma época com 10 golos, de resto, sempre marcou menos de 5 golos a cada época.

De repente, em 18/19, fez 23 golos e 6 assistências, em menos de 2000 minutos. Não consigo, nem pretendo encontrar explicação para um rendimento tão anormal – e, até no Benfica, foi a única época em que teve tal rendimento, nas outras teve o rendimento “do costume” – mas, o facto é que essa incomum época inflaccionou o seu rendimento global.

O normal será, de acordo com o seu histórico, que com o passar do tempo o seu número vá gradualmente piorando (mas, para isso, tem que jogar). Mas é normal que hajam outliers. Um tipo nos States ganhou a lotaria duas vezes. Eu próprio tirei um “excelente” num teste de história, uma vez. Acontece.

Tal como em tudo o resto, tudo “normal” nos outros…contudo, quando chega ao Sporting, há tanto que dizer.

Slimani é o avançado com melhor contribuição. Não é uma aposta assim tão difícil. O nosso Manézinho arranjou forma de surgir ali.

Luiz Phellype, com todos os defeitos que terá, penso que se poderá argumentar a seu favor que aproveitou os seus primeiros 1845 minutos no campeonato para contribuir com golos.

Sporar ainda tem 778 minutos, portanto, não é nada prudente tecer-se considerações (é, aliás, o oposto de prudente), mas seria ali que ele ficaria caso o mundo acabasse hoje.

Destaque para a muitíssimo fraca contribuição de Vietto. É certo que ainda só tem 1590 minutos, e que joga mais atrás no terreno…mas, porra, está a ser comparado a Postiga, Saleiro, Djaló e Diaby!

Wolfswinkel, à semelhança de Cardozo, perde muito por ter marcado muitos golos de penalti, e por assistir pouco. No caso de Wolfswinkel destaco também o factor “jogos” em vez de “minutos”. Wolfswinkel fez 2700 minutos em 2012/13. E fez 30 jogos. Sabem quanto é que isso dá 2700 a dividir por 30? Dá 90. O que quer dizer que jogou 90 minutos de TODOS os jogos da liga. Aliás, nessa época, os únicos minutos que não jogou, foram um jogo com o Moreirense para a taça da liga, um jogo com o Videoton e 30 minutos do outro jogo contra o Videoton.

É muito provável que as assistências de Liedson não estejam correctas, porque a maior parte dos jogos precedem a existência do Transfermarkt. Feitas as contas, como comparamos os avançados do Sporting com os dos outros clubes?

Vejamos:

Estão a ver o fundo da tabela, todo pintado de verde? Dos que destoam no fundo, um tem 1000 minutos, dois não devem ter as assistências devidamente contabilizadas, dois nem sequer são avançados, e os outros dois…foram vendidos por um total de 68 mendilhões.

Fora isso, dos jogadores que ultrapassam os 3000 minutos, temos Jonas, Falcao, Slimani como líderes. Seferovic, devido àquela anormal época, consegue esgueirar-se lá para o meio, depois segue-se Hulk, Rodrigo, Bas Dost, Mitroglou e Jackson a fechar o top 10.

Penso que não será surpresa para ninguém que haja uma correlação entre os avançados que mais contribuem e os clubes que têm mais sucesso. Mas confesso que fiquei surpreendido com a enorme discrepância que existe entre o Sporting e o resto.

Agora, resta saber se o ovo nasceu antes da galinha ou se foi o contrário. Isto é, os clubes tiveram mais sucesso, porque os avançados contribuíam mais…ou será que os avançados é que apenas contribuíram mais, porque estavam em clubes melhores, sendo, portanto, melhor servidos?

Provavelmente, ambos serão verdade.

Pessoalmente, não descurando a importância de ter um Srna em vez de um Bruno Gaspar a cruzar para a área, acredito-me mais na primeira hipótese; que os avançados são responsáveis pelo seu sucesso. Isso porque, na grande maioria das vezes, eles costumam manter um rácio mais ou menos estável ao longo dos vários clubes pelos quais vão passando. Mas mostrarei isso num futuro artigo.

Para já, foquemo-nos em tentar ter mais do que 3 tipos que contribuam com mais golos do que o Carlos Mané ou então – acreditem em mim – não vamos a lado nenhum.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *