$PRTN – Novo Banco: um poço sem fundo

Antes de começar, relembro a quem lê estas linhas de que não faço a mínima ideia daquilo que estou a escrever: não tenho licenças nem “canudos”, e, portanto, peço que façam a vossa própria pesquisa. O que se segue não constitui conselho para investimentos.

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Confesso que, quando me foi sugerida a ideia de escrever algo relacionado sobre o Novo Banco, estava à espera de escrever sobre uma das piores manobras de resgate a fundo perdido que tenho conhecimento em Portugal. No entanto, em vez de falar na fraca, e talvez propositada, gestão política deste resgate, irei documentar as mais recentes medidas tomadas pelo Conselho de Administração para “arrumar a casa”, e relacionar isso com o enorme buraco que o Novo Banco teve e terá nos próximos anos.

 

Apesar de ser verdade que o Novo Banco tem vindo a ter constantes injeções de capital por parte do Estado português – e, por extensão, por parte dos cidadãos portugueses -, não seria de esperar outra coisa. Não querendo defender o capitalismo sem qualquer regulamentação, um breve olhar pelos comunicados das Relações de Investidores do Banco revelam um cenário negro que duvido que nesta realidade teria outro tipo de desfecho.

 

É de conhecimento público que a operação da passagem do Banco Espírito Santo para o Novo Banco não foi suave. Mesmo separando o Banco em dois (o Banco “Mau” e o Banco “Bom”), vemos ainda hoje as consequências de anos de laissez-faire e permissibilidade de burocratas e gerentes, ambos com responsabilidades fiduciárias aos seus concidadãos e investidores, respetivamente.

 

Mesmo com todas a más decisões tomadas, é difícil superar o “Projeto Nata 2”. Trata-se de um conjunto de “empreendimentos” que tinha um valor original de 2732 milhões de euros, com um valor contabilístico de 1713 milhões de euros. Não obstante do valor do projeto ter passado a ser 62% do valor de compra (provavelmente também devido a depreciações), o empreendimento foi vendido por uns estonteantes 191 milhões de euros, com um impacto direto de -106 milhões de euros no resultado financeiro de 2019. Vários fundos estavam interessados nos projetos, e tendo em conta o valor inicial, é difícil dizer que não terá sido um bom negócio. Tendo em conta que esta venda foi orquestrada durante o ano passado, onde estávamos no topo do mercado imobiliário e de CAPEX, imagine-se qual o preço que teria sido vendido se tivesse sido a meio desta década. Com toda a gente a sair pelas portas de emergência do Novo Banco, os contribuintes teriam ainda mais que pagar.

 

E o que dizer do estado do crédito dos obrigacionistas? É preciso recuar até ao dia 19 de janeiro de 2017 para obter um comunicado que reporta o pagamento de juros aos obrigacionistas. Mesmo assim, este trata-se de um pagamento de juros a um cupão final, que tem de ser obrigatoriamente pago. Para encontrar um pagamento que não seja obrigatório ou que não seja de obrigações já garantidas, é preciso recuar ao dia 30 de junho de 2016. A taxa de juro? 0,000505556%. Até um depósito a prazo tem uma taxa maior, e com muito menos risco.

Num jeito de sinopse um pouco literária que resume bem o que venho escrevendo: se o Novo Banco estivesse a vender uma piscina de lixo radioativo, talvez esta fosse menos tóxica que os “ativos” que possui.

 

Não quero terminar sem oferecer uma solução, não só ao Novo Banco, mas também ao Governo português. Geralmente, sou a favor do mercado livre e da iniciativa privada, mas este tipo de gestão fora de qualquer controlo a nível de regulamentação é excessivo.

 

Nacionalizem o Banco. Realize-se a fusão dos depósitos com a Caixa Geral e Depósitos ou algo do género, e coloque-se as propriedades residenciais disponíveis a preços reduzidos como parte do programa do Arrendamento Acessível, uma vez que este programa parece que não ter oferta de habitações suficientes, para além da quantidade de contratos a serem celebrados ser diminuta. Fundo perdido por perdido, talvez se pudesse arranjar alguma coisa que verdadeiramente ajudasse os contribuintes a suportar os custos com o seu maior gasto mensal.

 

Quanto aos acionistas: lamento. É a vossa responsabilidade fazer a devida investigação às iniciativas que investem, e questionar os gestores. Investir numa empresa (ou em qualquer coisa), não é algo que se faça de ânimo leve. Existe sempre uma probabilidade não nula da empresa ir à falência, e é o trabalho dos investidores perceberem se esta é suficiente pequena para o valor esperado do investimento ser positivo.

 

Mas tal não foi feito, nem pelos investidores que deviam ter o maior interesse nisso, nem as agências e corpos governamentais auto-entitulados “os meninos crescidos cá de casa”. Ainda assim, nada que os portugueses não estivessem à espera.

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