Um clube em falência técnica

Se nos dois últimos artigos desta série Em falência técnica falou-se de economia no esquema mais global e a nível nacional, hoje falamos sobre o Clube que, dos três grandes, se encontra (supostamente) na pior condição financeira.

A análise que se segue é muito simples, talvez até demasiado. No entanto, servirá para colocar de forma clara os obstáculos que o Sporting Clube de Portugal enfrenta. Veremos que o Clube se encontra em falência técnica e que será necessária uma gestão muito cuidada e praticamente milagrosa para retirar o Sporting dessa situação. A alternativa a esta gestão é arriscar a vender parte da SAD para conseguir ter rendimentos suficientes para manter o clube operacional.

Recordemos uma das fórmulas mais importantes para analisar a saúde financeira de uma empresa: Capital Próprio= Ativo – Passivo. De forma geral, e sem entrar em detalhes contabilísticos, o ativo representa os bens de uma empresa, desde edifícios, propriedade intelectual entre outras coisas que sejam propriedade da empresa. Do lado do passivo, temos as dívidas da empresa aos fornecedores, créditos a bancos etc. O capital próprio é tudo o que sobra, e que é efetivamente o que é propriedade dos sócios da empresa.

Uma visita à página do Sporting permite-nos aceder a uma fotografia no tempo do estado financeiro da empresa. Abaixo seguem-se imagens do ativo, passivo e capital próprio da SAD ao fim do período de 1 de julho de 2019 até 31 de dezembro do mesmo ano.

Os parênteses são uma forma eufemística de apresentar um número negativo. O Sporting detém mais passivo que ativo. O seu capital próprio ronda os menos 20 milhões de euros. Se o Clube fechasse neste preciso momento e todos os seus bens fossem vendidos a exatamente o mesmo valor que são contabilizados no relatório, ainda seria necessário pagar 20 milhões aos credores.

O Sporting está em falência técnica. Apenas a caridade de bancos e entidades públicas – que sabem que o futebol em Portugal é, talvez, mais importante do que a religião e que deve ser mantido no seu pedestal de influência popular – mantém esta empresa aberta.

Se a empresa onde trabalham estivesse assim há mais de duas décadas, qual seria a vossa opinião? Duvido que tivessem realmente alguma, uma vez que essa empresa já teria encerrado há muito.

Ora, até agora falei de uma empresa, não de um Clube. Isso fará alguma diferença? A ideia de que um Clube, por ser uma organização desportiva e não uma empresa, não necessita de ter lucro ou de ter capital próprio positivo é imprudente.

No caso específico da SAD, o Clube detém a maioria das ações da mesma. O Clube, uma entidade diferente da SAD, tem como principais “acionistas” os sócios do Clube. Estes contribuem com uma parte da receita, na esperança de ter as modalidades do Clube (e até a SAD) a ganhar títulos.

A principal função dos sócios (e adeptos) é assim ser uma fonte de receita para manter as diversas modalidades e departamentos em pé.

A vantagem que um Clube tem por ter sócios que sejam adeptos do mesmo é que, independentemente do resultado financeiro das partes em questão – isto é, até à venda ou fecho do Clube -, estes terão sempre a tendência a pagar as quotas e a garantir uma parte da receita. Os clubes aproveitam-se, assim, da ligação emocional dos seus sócios para garantir o seu funcionamento.

Não há nada de errado com isso, apenas dá mais margem para os gestores do Clube tomarem piores decisões a nível financeiro. E são esses mesmo erros financeiros que temos visto, ano após ano, no Sporting Clube de Portugal.

É fácil ver que algo está errado. E, em vez de apontar dedos a lados, a movimentos e a filosofias, talvez deveríamos olhar mais para dentro e perceber onde é que fizemos as más decisões financeiras que levaram a este “estado das coisas”.

Deixo uma pergunta aos apoiantes e sócios deste Clube: serão os gerentes maus demais para gerir uma empresa? Ou serão os sócios permissivos demais ao escolherem e deixarem este comportamento dúbio alongar-se por mais de duas décadas?

Que escolham o vosso próprio veneno.

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